31/10/14

Vénia





Obrigado!
Muito obrigado!
É o mínimo que posso fazer. Agradecer reconhecidamente a todos os artistas amadores que levaram ao palco do Teatro Stephens durante seis noites consecutivas, repito: seis noites consecutivas, o espectáculo de abertura da nova Casa da Cultura.
Vai para eles o meu aplauso! De pé!...

Era bom que todos repetíssemos o gesto, principalmente aqueles que apenas se lembram do capítulo dos direitos, que exigem sem nada dar em troca, que semeiam ventos, que olvidam a obrigação de dizer um simples “obrigado” pelo sacrifício pessoal e familiar destas dezenas de pessoas que há mais de quinze dias, todas as noites, de forma ininterrupta, fizeram do palco do Teatro Stephens a sua casa, e dos seus colegas de ofício a sua família mais próxima. Apenas por amor.


28/10/14

Viva o Teatro Stephens






Foi com alguma emoção que voltei a entrar no Teatro Stephens, e foi também com alguma comoção que assisti ao “Palco de Memórias”, um espectáculo digno do momento, feito por marinhenses para marinhenses. Revivi gentes e tempos, afundei-me na cadeira de veludo escarlate e deixa rolar algumas lágrimas. Poucas. Coisas da idade.

Quanto à programação agendada, de entrada livre, um reparo.
No dia 21 de Novembro haverá um concerto único de António Zambujo, apenas acessível aos felizardos que esgotarão por certo a lotação do teatro, cerca de duzentas e tal pessoas (não sei precisar a lotação, uma vez que essa informação não está disponível).
De acordo com a informação disponibilizada na acta 21 de 18/09/2014 (disponível no site da CMMG), a contratação do cantor custará 8.500€ mais IVA.
Para um espectáculo único, de entrada livre e limitada a reduzido número de pessoas, parece-me difícil de perceber a relação custo/benefício. Tanto mais que uma parte substancial dos lugares, suponho eu, será ocupado por pessoas próximas da câmara (executivo, familiares e amigos, membros da assembleia municipal, familiares e amigos, etc, etc, etc – os que em “tempo útil” reservaram bilhetes).
Pelas razões invocadas parece-me que fazia todo o sentido que o espectáculo não fosse de acesso gratuito. Por uma questão de equidade.

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Na sequência deste reparo li a referida acta 21, da qual passarei a transcrever o ponto 19 relativo a este assunto.
Ridícula a forma e o conteúdo obrigatórios para a aprovação da contratação deste serviço. É o Estado que temos, tão rigoroso e formal numas coisas e tão ligeiro noutras. Ou muito me engano ou é fracamente mais simples resgatar um banco do que contratar o Zambujo.
Chamo a vossa particular atenção para o parágrafo por mim sublinhado. Uma pérola.


19 - PARECER PRÉVIO VINCULATIVO, NOS TERMOS DO DISPOSTO NO N.º 11 DO ARTIGO 73º DA LEI N.º 83-C/2013, DE 31 DE DEZEMBRO, QUE APROVA O ORÇAMENTO DE ESTADO PARA O ANO DE 2014, PARA A CONTRATAÇÃO DE “CONCERTO DE ANTÓNIO ZAMBUJO”.

745 - A Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, que aprovou o Orçamento do Estado para o ano de 2014, veio dar continuidade a um conjunto de medidas introduzidas pela Lei n.º 55-A/2010, de 31 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado para o ano de 2011, pela Lei n.º 64-B/2011, de 30 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado para o ano de 2012 e pela Lei n.º 66-B/2012, de 31 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado de 2013, tendo em vista a redução dos encargos do Estado e das diversas entidades públicas.

Nos termos do disposto no n.º 4 do artigo 73º da Lei do Orçamento de Estado de 2014, a celebração ou a renovação de contratos de aquisição de serviços por órgãos e serviços abrangidos pelo âmbito de aplicação da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de fevereiro, e pelo Decreto-Lei n.º 47/2013, de 5 de abril, alterado pela Lei nº 66/2013, de 27 de agosto, independentemente da natureza da contraparte, designadamente no que respeita a:
a) Contratos de prestação de serviços nas modalidades de tarefa e de avença;
b) Contratos de aquisição de serviços cujo objeto seja a consultadoria técnica.
carecem de parecer prévio vinculativo dos membros do Governo responsáveis pelas áreas das finanças e da Administração Pública, nos termos e segundo a tramitação a regular por portaria dos referidos membros do Governo.

Para os organismos e serviços da Administração Pública abrangidos pelo âmbito de aplicação da Lei n.º 12-A/2008 de 27 de fevereiro, foi publicada no Diário da República a Portaria 53/2014 de 3 de março, que regulamenta os termos e a tramitação do parecer prévio vinculativo dos membros do Governo responsáveis pelas áreas das finanças e da Administração Pública, previsto no n.º 4 do artigo 73.º da Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, e nos nºs 4 e 5 do artigo 35.º da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de fevereiro.

O n.º 11 do art.º 73 da Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado de 2014, estabelece que, nas autarquias locais, o parecer prévio vinculativo previsto no n.º 4 do mesmo artigo é da competência do órgão executivo e depende da verificação dos requisitos previstos nas alíneas a) e c) do número 5 do mesmo, bem como da alínea b) do mesmo número, com as devidas adaptações, sendo os seus termos e tramitação regulados pela portaria referida no n.º 1 do artigo 6.º do Decreto-Lei n.º 209/2009, de 3 de setembro, alterado pelas Leis n.ºs 3 – B/2010, de 28 de abril, e 66/2012, de 31 de dezembro.

Na presente data continua por publicar a portaria referida no parágrafo anterior, sendo que a necessidade da sua publicitação já vem sendo referida desde a Lei do Orçamento de Estado de 2010, Lei n.º 3-B/2010 de 28 de abril, atenta alteração consagrada no mesmo ao art.º 6.º do Decreto-lei n.º 209/2009, de 3 de setembro. Assim, para a Administração Local não existe regulamentação quanto aos termos e tramitação do parecer prévio vinculativo, previstos nos n.ºs 4 e 11 do artigo 73.º da Lei n.º 83 – C/2013, de 31 de dezembro.

Apesar da ausência de regulamentação para a Administração Local é entendimento generalizado de diversas entidades, nomeadamente a DGAEP, que o parecer prévio vinculativo e a redução remuneratória se aplicam às autarquias locais.

Assim sendo e considerando que nos termos do n.º 11 do artigo 73º da Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, a emissão do parecer prévio vinculativo, depende da verificação dos requisitos preceituados nas alíneas a) e c) do n.º 5 do referido artigo, bem como da alínea b) do mesmo número e artigo, a saber:
- Se trate da execução de trabalho não subordinado, para a qual se revele inconveniente o recurso a qualquer modalidade da relação jurídica de emprego publico e da inexistência de pessoal em situação de mobilidade especial apto para o desempenho das funções subjacentes à contratação em causa;
- Seja observado o regime legal da aquisição de serviços;
- O contratado comprove ter regularizado as suas obrigações fiscais e com a segurança social;
- Confirmação de declaração de cabimento orçamental;
- Aplicação de redução remuneratória preceituada no art.º 73º, n.º 1 da Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, Lei do Orçamento Estado para o ano de 2014 e no art.º 2º da Lei 75/2014 de 12 de setembro, de acordo com os quais a redução remuneratória é aplicável aos valores pagos por contratos de aquisição de serviços que, em 2014, venham a renovar-se ou a celebrar-se com idêntico objeto e ou contraparte do contrato vigente em 2013.

Presente a requisição interna n.º 13923/2014 e informação I/1222/2014, da DCD – Divisão de Cidadania e Desenvolvimento, nas quais se manifesta a necessidade de contratação do “Concerto de António Zambujo”, a realizar no dia 21 de novembro de 2014, na Casa da Cultura-Stephens, cujo contrato a celebrar carece de parecer prévio vinculativo nos termos do disposto no n.º 11 do art.º 73.º da Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado para o ano de 2014.

Considerando que o objeto do contrato a celebrar consiste na realização de espectáculo musical, cuja globalidade das tarefas a executar serão exercidas com autonomia, sem caráter de subordinação e imposição de horário de trabalho, revelando-se inconveniente o recurso a qualquer modalidade da relação jurídica de emprego público.

Considerando que a Portaria 48/2014 de 26/02, determina que seja realizada a verificação prévia, da existência de trabalhadores em situação de requalificação, aptos a suprir as necessidades identificadas, através de formulário a submeter no site do INA e que através de mail, datado de 16/09/2014, o INA informou que não existem trabalhadores em situação de requalificação para a realização dos serviços objecto do procedimento a contratar, conforme se atesta em mail anexo.

Considerando que o contrato a celebrar carece de parecer prévio vinculativo nos termos do disposto no n.º 4 do art.º 73.º da Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado para o ano de 2014 e que o procedimento a adotar é o Ajuste Direto previsto no artigo 20.º, n.º 1, alínea a) do Código dos Contratos Públicos, atendendo a que se prevê um valor do contrato inferior a 75.000,00 €.

Considerando que a DCD propõe o convite à empresa SONS EM TRÂNSITO - ESPECTÁCULOS CULTURAIS, UNIPESSOAL, LDA, NIPC 506 734 579, e que esta possui a sua situação regularizada no que respeita às suas obrigações fiscais e para com a segurança social, conforme documentação em anexo.
Considerando que se encontra inscrito em Plano de Atividades Municipais de 2014 a dotação para a assunção de despesa no ano de 2014 para a contratação do “Concerto de António Zambujo”, na classificação orgânica/económica 06/020220, ação do PAM 2014/A/123, tendo sido emitido o cabimento n.º 2236/2014.

Considerando que o preço base a aplicar é de 8.500,00€, acrescidos de I.V.A. à taxa legal em vigor, sendo este o preço máximo que a entidade adjudicante se dispõe a pagar pela execução de todas as prestações de serviços objeto do contrato a celebrar e que este não está sujeito a redução remuneratória, preceituada no n.º1 do art.º 73º da Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado para o ano de 2014, por não existir contrato com idêntico objecto celebrado no ano de 2013, não havendo, por este facto, termo de comparação, conforme se atesta em documentação anexa e em cumprimento do preceituado.

Considerando que nos termos do disposto na alínea b) do art.º 3.º da Lei n.º 8/2012, são compromissos plurianuais aqueles que constituem obrigação de efetuar pagamentos em mais do que um ano económico, conceito que não se aplica ao contrato que se pretende celebrar para a contratação do “Concerto de António Zambujo”, por os pagamentos inerentes serem efetuados na íntegra no ano de 2014, não ocorrendo a assunção de compromissos plurianuais.

Face ao exposto e considerando que se encontram cumpridos os requisitos preceituados nos n.º 4 e n.º 5 do artigo 73º da Lei n.º 83-C/2013 de 31 de dezembro, Lei do Orçamento de Estado de 2014, a Câmara Municipal delibera, de acordo com o n.º 11 do artigo 73.º da Lei n.º 83-C/2013 de 31 de dezembro, emitir parecer favorável à contratação do “Concerto de António Zambujo”, a realizar no dia 21 de novembro de 2014, na Casa da Cultura-Stephens.

Esta deliberação foi tomada por unanimidade.


23/10/14

Experimentação




Qualquer variedade tridimensional fechada e com grupo fundamental trivial é homeomorfa a uma esfera tridimensional.

Teorema de Poincaré



Crato, o matemático português que Passos não se arrepende de ter escolhido para ministro da Educação, compreende perfeitamente o que está em causa no Teorema Poincaré. Mas será que tem o mesmo discernimento a respeito das funções que Passos lhe atribuiu?
Para obter resposta a esta pergunta, decidi fazer um pequeno ensaio. Despretensioso. Caseiro.
- Ó Lurdes, chega aqui.
Lurdes Rata, a minha mulher a dias que pouco mais sabe do que escrever o nome e ler as promoções na Dica da Semana, entrou na sala e olhou-me com desconfiança.
- O que é que fiz desta vez? As manchas de lixivia que estão nas calças novas não fui eu! – afiançou. Tomei nota da auto-denúncia…
- Não tem nada a ver contigo. Ando aqui com umas dúvidas e preciso que me dês uma ajuda. Quero fazer-te duas ou três perguntas, pode ser?
- Você está-me p’ra me quilhar!?… O que é que quer?
- Lurdes, sabes para que serve a escola?
- Claro, para ensinar os meninos! – respondeu de pronto.
- E para ti o que é que é o mais importante na escola? O que é que vem em primeiro lugar?
- Os meninos!
- Está bem. E…
Lurdes interrompeu-me.
- O importante é que os meninos aprendam e sejam felizes!
- Está bem. Mas a escola é mais do isso.
- Claro que é, olha que porra! Para os meninos aprenderem e serem felizes é preciso que os professores sejam bons, que a escola tenha boas condições, uma boa cantina, e é preciso que os meninos com mais dificuldades tenham ajuda, que os funcionários sejam simpáticos. Olhe, na escola dos meus há alguns que passam por lá um mês ou dois e depois vêm outros, credo! Até parece que caem lá de paraquedas. Diz que são “póques” ou lá que raio é.
- Certo. Mas, para teres bons professores, o que é que achas que é preciso?
- Olhe, eu cá no meu entendimento acho que lá só deviam estar os que gostam. E depois sentirem-se estimados. Olhe, a professora do meu mais velho veio de Viseu. Já viu o que é uma mulher com homem e garotos pequenos vir pr’aqui baldeada? Não deve ganhar pró que gasta… eu cá preferia ficar em Viseu, nem que fosse a lavar retretes.
- Sim mas, se calhar ela vem porque dar aulas é aquilo que gosta de fazer.
- Mas olhe que os professores hoje em dia aturam cada coisa. No meu tempo havia respeito! E depois as professoras dos meus estão sempre a dizer que passam o tempo a preencher cada vez mais papelada em vez de estarem a ensinar.
- Queixam-se muito, é?
- Olhe que quando você me manda fazer coisas que não lhe vejo proveito, também não acho grande piada. E os livros?
- Obrigado Lurdes. É só.

Lurdes Rata, que é mulher sem grande instrução, em duas ou três pinceladas revelou mais sensibilidade e bom senso do que o matemático Crato.
No essencial estou de acordo com aquilo que disse. A formação dos “meninos” de hoje, homens de amanhã, o mais importante de tudo, nunca poderá ser feito numa escola em que não se investe num corpo docente e auxiliar preparado, estável, motivado e respeitado (por todos sem excepção!), numa escola em que não se investe no apoio aos mais desprotegidos, numa escola em que se investe na burocracia e nos desperdício de tempo e de recursos, numa escola em que pura e simplesmente não se investe porque pura e simplesmente se confunde investimento com despesa.
Caro Passos, lamento informá-lo. Lurdes Rata, a minha humilde mulher a dias, está muito melhor preparada para assumir a pasta da Educação do que o eminente matemático Crato, escolhido por si.
Aqui que ninguém nos ouve: exonere lá o moço e “livre-me” da Lurdes por uns tempos. Apenas os suficientes para ela pôr a casa em ordem. Aceita o meu repto? Ou será que também se sente ameaçado?



20/10/14

Arte e Manhas



Enquanto beberrico um pequeno cálice de ponche, tento em vão concentrar-me. A escrita não se compadece com o turbilhão de ideias e mensagens que gravitam  em torno do cérebro, que chocalham dentro do cérebro. Muitas vezes o problema nem é de “inspiração”, é de síntese. A fronteira entre a verborreia e a legibilidade é tão ténue, que até a inocente cantilena que Lurdes Rata ensaia à capela enquanto engoma as camisas da semana, um dos clássicos da vasta obra de Tony Carreira, se torna num obstáculo quase intransponível. – Tá calada mulher! – grito eu da sala. Lurdes acusa o toque e manda-me à merda, de caminho. Faz-se-me luz – é isso mesmo, é por aí que devo começar: “este Orçamento de Estado é uma merda!”. A adjectivação não é iconoclasta, é mesmo biológica…

Goebells, ou até o trapalhão Mohammed al-Sahhaf, não fariam melhor. A propaganda aos supostos méritos do OGE de 2015 está na rua e faz o seu imperturbável caminho, acolitada por zarolhos, coxos, comentadores, peritos e videntes. As rotativas não dão tréguas e as parangonas sublinham o jackpot: “Cada filho vale 925€ no IRS” (Correio da Manhã); “Alívio fiscal nos salários já em 2015” (Jornal de Notícias); “Pensões médias e altas pagam menos” (Jornal de Negócios); etc etc, etc; apenas a Nova Gente, quase sempre atenta ao mais ínfimo pormenor, prefere um caminho bem mais tortuoso mas não menos aliciante, revelando aos seus leitores segredos de alcova da viçosa monarquia: “D. Duarte tem hipoteca no BES” … apenas ficou por esclarecer se no bom, ou no mau… detalhes…
Não fossem os perigosos marxistas-leninistas, comunistas empedernidos e maoistas ressabiados, Bagão Felix, Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira, a desalinhar, e a procissão seria um passeio pelos media. É inaceitável a forma despudorada como a ministra Luis e os restantes cobradores do fraque, que parece ainda gozarem de boa imprensa (pasme-se), passam uma esponja meio húmida sobre o brutal aumento de impostos, que não vê alívio, sobre a incompreensível fixação de um limite para os apoios sociais, sobre o fim da clausula de salvaguarda do IMI, sobre os inqualificáveis cortes na despesa (com o epíteto de “poupança”), que mais não são do que um desinvestimento colossal nas primordiais funções do Estado (educação, saúde, etc), sobre a tramóia da “fiscalidade verde”, uma espécie de colecta fofinha, ecológica, moderna, que mais não visa do que extorquir o pouco que sobra à carneirada, sob a capa de supostas preocupações de sustentabilidade ambiental. E no topo do monte de esterco, voilà, a poia ainda fumegante: [o orçamento para 2015] “é fiscalmente mais moderado” (dixit Mr. Harry Porttas, ex-defensor dos reformados, dos espoliados, dos contribuintes, dos encalhados e dos portadores assintomáticos de cálculos renais).
Mais uma vez o traço ideológico do orçamento não deixa dúvidas à alvura do algodão e a nova baixa da taxa de IRC sintetiza essa preocupação para com os que mais sofrem com a crise – os grandes contribuintes de IRC, na sua maioria empresas em regime de monopólio ou semi-monopólio, e que também na maioria dos casos não se dedicam à produção de bens transaccionáveis, muitas delas exercendo inclusivamente actividades especulativas. Sejamos sérios, em que é que se traduz a baixa de IRC? Apenas numa coisa muito simples e óbvia, num alívio fiscal para os que mais deveriam contribuir e numa sobrecarga para os do costume. Mas porventura alguém com dois dedos de testa associa a baixa da taxa de IRC na actual conjuntura, à competitividade, ou ao investimento, ou à criação de postos de trabalho? É que se assim fosse, a baixa de IRC de 2013 para 2014 já estaria a produzir efeitos.
Verdade seja dita, quaisquer que fossem as medidas para 2015, haveria sempre por onde pegar. Porque se por hipótese, meramente académica e inverosímil, este governo de saloios diminuísse a carga fiscal, só provaria que tudo o que fez desde o início foi errado, conforme já o reconheceu, o ex-futuro boy do FMI, Vitor Gaspar.
Passos & Portas, as duas faces da moeda deste governo sem crédito não são, de facto, fundamentalistas orçamentais, são apenas cretinos orçamentais. Em bom.


17/10/14

Mais Eça!




- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O emprestimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questão do emprestimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episodio historico!...
O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do prato, e respondeu, com auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar absolutamente. Os emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensavel, tão sabida como o imposto. A unica occupação mesmo dos ministerios era esta - cobrar o imposto e fazer o emprestimo. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o paiz ia alegremente e lindamente para a banca-rota.
- N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusões, meu caro senhor. Nem os proprios ministros da fazenda!... A banca-rota é inevitavel: é como quem faz uma somma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras.
- A banca-rota é tão certa, as cousas estão tão dispostas para ella - continuava o Cohen - que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou tres annos, fazer fallir o paiz...
Ega gritou soffregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionaria constante; nas vesperas de se lançarem os emprestimos haver duzentos maganões decididos que cahissem á pancada na municipal e quebrassem os candieiros com vivas á Republica; telegraphar isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a banca-rota estalava. Sómente, como elle disse, isto não convinha a ninguem.
Então Ega protestou com vehemencia. Como não convinha a ninguem? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! Á banca-rota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um paiz que vive da inscripção, em não lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou procedendo apenas por vingança - o primeiro cuidado que tem é varrer a monarchia que lhe representa o calote, e com ella o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida, da velha gente, d'essa collecção grotesca de bestas...
A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de grotescos, de bestas, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia mediocres e patetas, - mas tambem homens de grande valor!
- Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Você deve reconhecel-o, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha saber.
E, lembrando-se que algumas d'essas bestas eram amigos do Cohen, Ega reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porém cofiava sombriamente o bigode. Ultimamente pendia para idéas radicaes, para a democracia humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo pararello: queria uma republica governada por genios, a fraternisação dos povos, os Estados Unidos da Europa... Além d'isso, tinha longas queixas d'esses politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacção, de café e de batota...
- Isso, disse elle, lá a respeito de talento e de saber, historias... Eu conheço-os bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
- Não senhor, Alencar, não senhor! Você tambem é dos taes... Até lhe fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, há talento, ha saber.
E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira casa da rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito - admittiu que não deixava de haver talento e saber.
Então, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos rebeldes ao respeito dos Parlamentares e á veneração da Ordem, Cohen condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz necessitava reformas...
Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.


“O Maias”

Eça de Queiroz

(1888*)


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* de 1888 para 2014… é só fazer as contas…



07/10/14

Confesso-me agnóstico








Pedi à Lurdes Rata que me fosse buscar o espremedor dos limões e tentei a minha sorte. Quase nada. Apenas meia dúzia de pequenas gotas escorreram para a base do espremedor. Talvez tenha utilizado o equipamento errado, pensei cá para comigo. Vou tentar a centrifugadora Moulinex. Talvez tenha mais sorte. Talvez a força centrifuga consiga o milagre de transformar os chavões pré-cozinhados, soprados por um qualquer guru pós-moderno, em meio decilitro de sumo. Já não peço mais…

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Ora pensava eu que uma identidade se construía ao longo de anos, com base no ADN herdado e em resultado daquilo que são competências técnicas (e artísticas) adquiridas e consolidadas ao longo de diversas gerações. Ora pensava eu que a Marinha Grande era única e irrepetível pelo património industrial (e cultural associado) acumulado ao longo de anos e anos de trabalho árduo e de empreendedorismo autêntico. Ora pensava eu que todo o trabalho se devia concentrar num esforço autêntico e genuíno para recuperar, preservar, manter, desenvolver e elevar a patamares superiores de excelência aquilo em que orgulhosamente nos revemos e em orgulhosamente somos competentes, a nossa verdadeira identificação colectiva. Quando, por artes mágicas - abra-cadabra - descubro que a mudança de identidade se pode decretar através de uma simples intervenção plástica, estética, em resultado da manipulação em laboratório, uma espécie de identidade proveta trazida á luz do dia por estrangeirados e iluminados.
Não sou contra a modernidade nem contra novos conceitos. Não sou contra o design nem contra novas tendências. Não sou contra a engenharia nem contra a investigação e desenvolvimento. Mas sou absolutamente contra uma política pacóvia de destruição dum património secular, sobretudo por omissão, rendida a uma suposta visão redentora duma nova identidade, um espécie de desígnio colectivo que não tem qualquer suporte, nem económico, nem social, nem político, e que, acima de tudo, não encontra o mais pequeno eco na prática duma equipa que lidera de forma amadora e casuística os destinos da nossa amada terra.
“Que se deixe cair a Capital do Vidro e dos Moldes “ – proclamou o rei! – “Mandem anunciar por todo o reino que de agora em diante seremos o Centro de Engenharia & Design. E agora vou-me retirar que estou estafado! É que esta coisa de perspectivar o vosso futuro é uma coisa que me consome muita energia! Não é Vitinho?”



25/09/14

Ora Eça!



O Deputado Pedrosa, um fulano cordato e perspícuo, que arrota azia a Medeiros e que cita Dumas e Jorge Jesus enquanto vibra de fervor num idílico campo de papoilas saltitantes, decidiu dar à estampa no seu pasquim virtual face-to-face, um terno momento de reconciliação e de indulgência. De elevada nota artística. Atentemos pois à coisa dita:

Uma moldura humana impressionante ontem no jantar de Antonio José Seguro em Lisboa, mais de mil pessoas na iniciativa. Apesar da angústia por um partido dilacerado, há também aspectos positivos, nota-se uma grande adesão em ambos os lados, iniciativas com centenas e mesmo milhares de socialistas e simpatizantes, o que dá ao dia 29 de Setembro um sinal de esperança ou não fosse, claro está, este o meu dia de aniversário.

Embaçado pela significância e pela delicada acutilância da prosa, entre o coice de mula velha e a doçura do mel de rosmaninho, recordei o velho Eça na sua sublime e magistral obra prima “Os Maias”, a qual me atrevo a copiar, cuidadosamente:

Citou então o exemplo do Gouvarinho: alli estava um homem de occupações, de posição politica, nas vesperas de ser ministro, que não só ía ao baile, mas estudara o seu costume: estudara, e ía muito bem, ía de marquez de Pombal!
- Reclame para ser ministro, disse Carlos.
- Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro: tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!...
E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
- Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo!


19/09/14

Bolsa. De valores?


Com o ar fresco e jovial duma manhã sombria de fim de verão, o pivot mal-dormido anunciou a menina da Reuters, que iria trazer as mais serenas e apaziguadoras notícias dos mercados - hoje, dezanove de Setembro do ano da desdita de dois mil e catorze, os mercados “abriram em alta”.
Cunha Lima, a menina da Reuters, confirmando a deixa do mal-dormido, reiterou a abertura dos mercados em alta, justificando o facto com a vitória do “não” no referendo na Escócia. Mais, disse a menina Cunha Lima da Reuters, que os mercados reagem positivamente à estabilidade política, penalizando as situações de incerteza, como supostamente seria o caso da vitória do “sim”.
É sempre bom acordar a uma sexta-feira dezanove de Setembro do ano da desdita de dois mil e catorze, e saber, através da menina da Reuters, que os mercados gostam de “estabilidade” e que têm “reacções”. Tanto mais tranquilizante, para um país com uma dívida pública à volta dos 134% do PIB…
Por uma questão de preguiça intelectual, poderia até ficar sossegado a ruminar as "boas novas" da menina da Reuters numa manhã de sexta-feira, em vésperas de fim-de-semana chuvoso, ou até, e porque não, ter uma qualquer reacção vagal como aquelas que o Sr. Silva experimenta quando o assunto não lhe convém.
Contudo, a bem da minha higiene mental, prefiro a inquietude estimulante que me provoca o exercício físico dos dois neurónios e meio com que o criador me equipou o córtex frontal, e ler as entrelinhas. De facto, o que a menina da Reuters disse foi aquilo que todos sabemos e que é em grande medida uma das principais razões da nossa desgraça colectiva, é que os mercados, tal como os fungos, necessitam de um ambiente propício para se desenvolverem, reagindo mal a um fenómeno físico-químico cada vez mais posto em causa que dá pelo nome de “democracia”. O problema dos mercados não é a instabilidade, porque é nessa instabilidade, sobretudo social, que encontram a matéria orgânica essencial ao seu obsceno crescimento, através de processos de decomposição. Tal como o fungos.
O problema dos mercados é que convivem muito mal com o facto de cada um de nós ter um pequeno quinhão de responsabilidade, e de possibilidade, de mudar o rumo da história. E isso é uma coisa que os irrita profundamente, pois a “racionalidade” (dos mercados) não se mede em sabedoria nem em conhecimento, mede-se em lucro. Para quê a democracia política, se a “democracia económica” lhes basta?
Bom fim de semana e não fiquem muito a pensar nisso.
Olha, bem jeitosa, a menina Cunha Lima. Da Reuters.



17/07/14

"Ser ou não ser, eis a questão"


Na sua famosa peça ”A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, William Shakespeare tratou de colocar a fasquia bem alta. Elevou o patamar da discussão da mera bagatela do “ser” e do “perecer” dispensada a Pompeia Sula, mulher de Júlio César, uma fulana esbelta e arisca que numa famosa orgia báquica por si organizada se pôs a jeito de engalanar o legítimo com armação de cervato, para o nível da afirmação ou da negação da competência e da consequência. A verdade é que se é, ou não se é. Não há volta a dar. Ou se é competente e capaz ou se é incompetente e incapaz, não há meio-termo.
Por isso, hoje não ficaria de bem com a minha consciência se não assumisse absolutamente o repto de Shakespeare e manifestasse de forma peremptória o que penso e sinto, tornando-me cúmplice por omissão. Como não quero ser hipócrita digo-o sem quaisquer pruridos: o actual executivo camarário é talvez o pior executivo que nos governou desde o 25 de Abril. Não pelo voluntarismo nem pela vontade, antes pela falta de visão estratégica, pela falta de capacidade de liderança, pela falta de atitude auto-crítica e pela inércia. Uma desgraça…
Não. Não me refiro a questões de lana-caprina que atafulham pasquins e redes sociais. Refiro-me antes a um rumo com sentido e a uma atitude que antecipe cenários e ponha no centro da agenda as questões que efectivamente são fulcrais e estruturantes para o concelho. E são muitas. Quais as reais preocupações deste executivo relativamente às condições de desenvolvimento da actividade económica do concelho? Quais as reais preocupações deste executivo relativamente à qualidade de vida proporcionada à sua população? Quais as reais preocupações deste executivo relativamente à projecção do concelho no panorama nacional e no contexto europeu? Quais as reais preocupações deste executivo relativamente à gestão da água? À gestão da malha urbana?...
Infelizmente não encontro respostas pelas simples razão de que para este executivo tudo é muito complicado e qualquer opinião diversa resulta numa perigosa deriva insurgente. Infelizmente este executivo não dá mostras de que é [capaz] - não percebe que a política e o serviço público devem ser servidos com grande competência, rigor e humildade, não compreende que gerir é pensar, decidir, planear, executar e controlar, não entende que um executivo municipal não se pode esgotar num qualquer comité de organização de eventos pontuais e desgarrados (já para não dizer que muitas das vezes, desfasados, da realidade).
Erro de casting? Falta de qualidade da classe dirigente e política? Falta de exigência dos munícipes? Interesses? Mesquinhez? Sede de poder? Talvez tudo isso ou o seu contrário.A verdade é que Shakespeare tinha razão: “ser ou não ser, eis a questão”. E neste caso, para mal de todos nós, é “não ser” [competente].



24/06/14

Estaleiros de Campinas




De forma ritmada e com a precisão dum ourives de Viana, o chefe de equipa ía solicitando com voz roufenha de cachaça e tabaco, os instrumentos de que necessitava para reparar as secções danificadas.
A cada solicitação do chefe os serventes acenavam de imediato com o utensílio, gritando com sotaque vincadamente alemão – “Prronto!”
- Serrote!
- Prronto!
- Chave inglesa!
- Prronto!
- Rebarbadora!
- Prronto!
- Óleo!
- Prronto!
- Martelo!
- Prronto!
- Eu disse martelo, porra, não disse marreta!
- Prrontos, desculpe...
- Desculpe a prima. À conta destes enganos dei cabo dum que estava quase bom!…
À fina ironia do chefe, respondeu toda a equipa com uma monumental gargalhada. O chefe era especialista em tiradas humorísticas assertivas e perspicazes. Considerava mesmo que, em vez de anos e anos a queimar as pestanas, poderia perfeitamente ter vingado no stand-up.
- Ó chefe, e daquela vez em que pusemos pastilha Gorila nos travões do gajo? – recordou um dos serventes.
Imitando o sotaque do xerife de campo, num subtil sibilar de sopinha-de-massa, o chefe dos estaleiros atirou nova graçola:
- Aqui trabalha-se… com tranquilidade… com tranquilidade…
Nova risada geral.
A humidade e o calor tornavam o ar irrespirável e faziam toda a equipa suar em bica, obrigando a algumas paragens técnicas para hidratação, com choupinhos, caipirinha e shots de cachaça de jambu, aliás, os mais apreciados pelo chefe de equipa, que também não dispensava um bom forró como música ambiente para lhe aumentar “os índices de concentração”.
Volvidos alguns minutos de aturado trabalho de recuperação, o chefe chamou um dos directores de serviço, um baixote de madeixas aloiradas experiente em cenas de pugilato com árbitros, e deu-lhe indicações precisas:
- Este está pronto. Leva-o para o balneário e diz ao Bento que, pelo menos um quarto de hora funciona. Depois disso, não garanto nada.
- Mas sempre se arranjam onze? – retorquiu o baixote.
- Olha-me este. Onze? Ò menino, nem tu sabes o que eu consigo improvisar com material em segunda-mão.
Toda a equipa de serventes respondeu de imediato com uma solidária gargalhada forçada.
Colocaram Postiga no porta-paletes e ficaram a admirar o baixote desaparecer no corredor empurrando o carrinho com afinco.
Um dos serventes, que há alguns minutos atrás rira de forma desbraga, mas que não tinha percebido o alcance da piada, remoendo a frase enigmática solicitou uma aclaração:
- Ó chefe, aquela da marreta… foi na cabeça do Pepe, não foi?



10/06/14

Abanou, mas não caiu!


De súbito sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Nem mesmo no famigerado dia em que Paulinho decidira tornar irrevogável o primeiro divórcio registado em Portugal entre pessoas do mesmo sexo, sentira algo semelhante - um frémito que lhe percorria a espinha e lhe entaramelava a língua, tornando turva a realidade e fazendo-lhe cair sobre os ombros uma responsabilidade que juraria não ser sua.
Pressentindo o inevitável, suspendeu a lenga-lenga, revirou os olhos, bufou, vacilou e por fim deixou-se cair suavemente e em segurança nos braços fortes e peludos do oficial de serviço.
A alguns passos de distância Pedro não esboçou sequer um reflexo de socorro, demonstrando um auto controlo digno de registo – era preciso manter a pose e um verdadeiro homem de Estado não vareja! Ainda olhou de esguelha para o presidente do Constitucional, que ao seu lado se entretinha a tirar chumbo das unhas, mas este também na reagira.
Na plateia, Nogueira e os sete anões que o acompanhavam e que desde o início da função não tinham parado sossegados um minuto, exultava de contentamento, convencido de que as palavras de ordem que gritavam desde o início se haviam tornado no feitiço que começava a derrubar o regime. Nogueira sentia-se um autêntico Harry Potter, agora mais do que nunca, convencido dos seus próprios poderes. Talvez até quando saísse dali fosse lançar uma macumba sobre o mundial e, num passe de mágica, paralisar todo o metro de S. Paulo. A ideia pareceu-lhe excelente e exequível. Coincidência ou não no Brasil os metroviários agitaram-se, confirmando o ditado - Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay...
Percebendo que o momento era de emergência o mais alto graduado tomou posse administrativa do micro e, anunciando que falava na qualidade de guarda-freios, pediu aos sete anões “mais respeito” pela instituição e informou a populaça que eram horas de “damas ao bufete”. Seguro, sentido que iria de novo ser apanhado desprevenido, apalpou atrapalhadamente os bolsos do casaco cerzido com fina seda afegã, na ânsia de encontrar uns trocos para pagar uma gasosa a Costa. Felizmente haviam sobrado setenta e cinco cêntimos da última campanha para as europeias. Mas eram os últimos e Seguro sabia da insaciável sede de Costa.
Enquanto isso, em Santarém, entre um tinto e duas rodelas de paio, Jerónimo, informado do sucedido através de um velhinho mas seguro “oki-toki” do tempo da guerra-fria, acendia uma velinha a S. Bento pela saúde do enfezado e pela queda do governo.
Cavaco, já todos percebemos, não é pressionável nem impressionável, de acordo com as palavras do próprio. Mas a sua vulnerável condição humana não o livra duns abanões da mãe natureza, sempre sabia e atenta – “Acorda Cavaco, cumpre com as tuas obrigações e deixa-te de achaques! Afinal de contas és um homem ou és um rato?”
Após alguns minutos de minuciosa inspecção por um perito militar em minas e armadilhas, Cavaco voltou mais fresco e leve do que nunca, ignorando por completo todo o enquadramento - um povo que sofre e um país que se afunda sem esperança, às mãos de uma corja de incompetentes! Porém, retomando a palavra citou Camões:

“Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assim sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!"

Viva Portugal!
Viva!


Piada de Caserna


Com o chumbo pelo Tribunal Constitucional dos novos cortes nos subsídios dos funcionários públicos, dos temporariamente doentes, dos sem emprego e dos sobreviventes, o governo procura medidas alternativas para cobrar a receita “roubada” pelos implacáveis juízes do palácio Ratton. Em cima da mesa estarão já algumas medidas substitutivas, nomeadamente relativas a mais cortes na saúde.
De acordo com rumores, Passos Coelho e Paulo Macedo estudam já a possibilidade das endoscopias e das colonoscopias serem substituídas por selfies. Parece-me bem. Se quiserem até me ofereço como voluntário para os primeiros testes. Uma polaróide ao vesgo não custa nada e até evita a intolerável invasão do atrevido tubinho.
E para que a selfie fique mais composta estou até a pensar em deixar crescer a barba, que é como quem diz, e tatuar o Cavaco e Silva numa nalga e o Bruno do Carvalho na outra. Modernices...


06/06/14

Micro-deuses





“Um líder à altura... António Costa: o mesmo que foi eleito para o PE e esteve lá apenas um ano. O mesmo que deixou de ser Ministro para ser Presidente da CML e agora, meses depois de ter afirmado que estaria em Lisboa com 'os dois pés' já está de malas aviadas para o Largo do Rato.
Oportunista, tacitista, maquiavélico e sei lá que mais não auguram nada de bom para um Líder partidário.”

(comentário do Sr. N. Araújo no faceboock do deputado Dr. Feteira Pedrosa)

É que até apetece citar o Criador: “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. Não é assim senhor ex-prior?



23/05/14

Voto útil



- Lurdes!?
- Humm…
- Não te esqueças que domingo há eleições.
- E o qu’é qu’eu tenho a ver com isso?
- Tens de ir votar.
- Eu? Votar? P’ra quê? Esses camelos são todos iguais, só querem é tacho.
- Não consegues entender a importância do teu voto?
- É p’rá cambra?
- Não, é para o Parlamento Europeu.
- Isso é lá da Lombarda ou o carago? Que se quilhe…
- Não é Lombarda é Bruxelas.
- Ou isso, eu sei qu’é nome de couve. Que se quilhe…
- Caso ainda não tenhas percebido, estas eleições são talvez as mais importante. Porque hoje em dia tudo o que se passa cá tem a ver com o modelo de União Europeia que temos e que desejamos para o futuro. Tem a ver com a moeda única, com os tratados, com as directivas, com as políticas comuns, com as…
Lurdes Rata, que estava sentada no sofá da sala a passajar meias, levantou a cabeça e fuzilou-me com o olhar míope dum microtus lusitanicus, interrompendo o meu discurso apologético da democracia participativa e da cidadania responsável.
- Oiça cá, já reparou que tem os peúgos todos rotos e coçados? Esta porra dá uma trabalheira a passajar que já me doem os olhos e as cruzes.
- Pois é Lurdes, nunca irás perceber o que realmente está em causa.
- E você percebe? Vá-se quilhar.
Irritado, virei-lhe costas e saí porta fora para o patim.
Contente por me ver, o canito atirou-se a mim à procura duma festa, enchendo-me  as calças, lavadas e impecavelmente vincadas pelas Lurdes Rata, de lama, de odor e de pelo de cão. “Não vale a pena dar água a quem não tem sede” – pensei para comigo. Afinal de contas no próximo domingo o Marquês de Pombal estará vazio e não haverá directos com militantes eufóricos a exultarem de alegria por mais uma vitória. Ainda bem que Soares, a quem o umbigo não pára de crescer, leu o meu último post e logo à tarde fará jejum. Melhor seria que no domingo também fizesse abstinência. Talvez assim Seguro tivesse um lampejo de Sentido de Estado e Costa uma epifania. Não me parece. Seguro sonha ser primeiro-ministro e Costa presidente do glorioso e dos pasteis. Basta assim. A ditadura europeia a 28 agradece de forma reconhecida a generosidade dos spreads, o que para a Lurdes Rata é perfeitamente indiferente. O pior é a conta da luz ao fim do mês…



12/05/14

Ensaio Político

  
Entre duas notícias de desgraças humanas, a pivot do jornal das oito lê a nota de rodapé do início da campanha eleitoral para as europeias, seguindo-se as habituais imagens das procissões de arciprestes, acólitos e paisanos, beberricando espumante e mijo de burro em púcaros de alumínio, servidos por diligentes escanções localmente bem aparelhados.
É bem certo. As campanhas eleitorais são cada vez mais como as épocas de saldos, começam muito antes da data marcada e apenas servem para despachar stock. Vai-se falar de tudo menos do tema. Porque a europa é uma miragem, lá longe, e porque a paróquia está à tripa-forra e quer despachar a quadrilha que tem franqueado a porta ao saque. Mas para serem substituídos por quem, senhores? Pelo Tó Seguro, o anémico secretário-geral do maior partido da oposição que se arrisca a ser primeiro-ministro sem saber contar nem soletrar?
É bem certo. Só vejo uma forma do maior partido da oposição, que se arrisca a indicar o próximo primeiro-ministro, perceber as suas mais profundas responsabilidades e a delicadeza do momento – levar uma tareia vexatória no próximo dia 25 de Maio.
É que se assim não for, Dupont vai suceder a Dupont, e uma mão lava a outra e as duas lavam o vesgo. E a malta continuará atolada até ao pescoço. Ou como diria o génio Lopes Graça – ACORDAI! ACORDAI! ACORDAI!...



26/03/14

Limpinho, limpinho!




- Quem vem lá faz alto! – berrou inseguro o 2º cabo, segurando desajeitadamente a G3 nas mãos trémulas e apontando-a sem grande convicção em todas as direcções.
A noite, escura como breu, não deixava enxergar um palmo à frente do nariz. O silêncio, apenas entrecortado pelos pios das aves nocturnas, que mais se assemelhavam a gritos lancinantes de almas depenadas pela maldita crise, tinha-lhe permitido identificar no sonar do instinto de sobrevivência o ruído de passos furtivos na sua direcção. A brilhante moleirinha do 2º cabo Seguro recordava agora a utilidade de todos os ensinamentos que recebera durante a recruta Jota - “Se o cabrão se aproximar de ti e não disser a senha, espeta-lhe um tiro nos cornos! Há divergências que são insanáveis e só a morte é irrevogável(1). Nunca te esqueças que a hesitação é a morte do artista e um gajo tem de se mostrar sempre confiante!”.
Do outro lado uma voz folgazona cantarolou com timbre de barítono:
- Calma pá, sou eu, o 1º cabo Passos, pá!
- A senha! – gritou o 2º cabo, à beira dum ataque de nervos – Se dás mais um passo nos cornos espeto-te um tiro no cabrão!
A tensão condicionava-lhe o raciocínio e a fórmula de guerra, repetida vezes sem conta pelos instrutores do aparelho, saia-lhe da boca de forma desordenada. Do outro lado ouviram-se risinhos.
Os segundos que se seguiram pareceram-lhe uma eternidade. Porventura teria coragem para disparar?
Após alguma hesitação, do outro lado do breu o 1º cabo Passos, que se fazia acompanhar pelo sargento-mor Silva, voltou a tentar quebrar o gelo:
- Eh pá, baixa lá a bazuca a que gente só quer dar dois dedos de conversa, pá.
Como um autómato o 2º cabo Seguro ripostou com a firmeza dum guerreiro pigmeu:
- Repito, senão dizes a senha espeto-te uns cornos no tiro do cabrão!
Do outro lado nova risada.
- É pá, a senha é… a senha é… é… hi, hi, hi…
Pressentido que a coisa podia descambar e que ambos podiam explodir de riso a qualquer momento, o sargento-mor puxou dos galões baços de sebo e segredou ao 1º cabo Passos:
- experimenta “programa cautelar”.
Embora a contra gosto, o 1º cabo colocou a voz e cantarolou a suposta senha, como se estivesse a representar numa revista de madame La Féria:
- Prontos pá, programa cautelar. Estás satisfeito?
Do outro lado da noite ouviu-se uma descarga intestinal inusitada.
Não reconhecendo a senha como válida e pressentindo que teria de tomar uma decisão complicada, o 2º cabo Seguro acabara de sujar as truces imaculadas que recebera de espólio na última refrega com o furriel Costa.
Tentando recompor-se e assumir de novo uma atitude ofensiva de táctica defensiva, o 2º cabo tapou as narinas com o polegar e o indicador, berrando com voz anasalada e com quanta força tinha, o que ainda tornou o ultimato mais hilariante para os seus interlocutores:
- Último aviso: ou dizem a merda da senha, ou o cabrão dos cornos espetam-se no tiro!
Sentindo o odor a fezes moles e temendo uma recaída da moral dos investidores, o sargento-mor tentou uma vez mais assumir o controlo da situação. Colocou as mãos em concha à volta da boca para amplificar o som e vociferou para o escuro, alto e bom som:
- Camaradas subalternos, deixem-se mas é de brincadeiras e entendam-se lá que eu não tenho a noite toda para estas pintelhices. A conversa já me está a cheirar mal e já não tenho idade para andar ao relento até tão tarde. Acho que já apanhei um resfriado. Por acaso alguém tem por aí uma pastilha para a garganta? De preferência com sabor a laranja. Hum?
Pressentindo que o tempo se esgotava e que não lhe restava outra alternativa, o 2º cabo tentou ensaiar a melhor saída:
- Não volto a avisar, ou me dizem a puta da senha ou… - a frase foi interrompida pela voz esganiçada da generala Angela que tentava descansar numa tenda montada a um bom par de metros da linha de frente.
- Pouco barrulho que eu prreciso de descansarr a cabeça! Se continuam a fazerr barrulho mando-vos darr uns açoites e corrtarr na rração!...
- Outra vez? – questionou entre dentes o 2º cabo.
- Algum prroblema 2º cabo? – retorquiu a generala, que tinha ouvido de tísico.
- Nenhum, senhora generala. Eu só queria mesmo era saber a senha…
Apercebendo-se que o precipício estava a um passo, o sargento-mor procurou no bolso do camuflado um pedaço de papel onde tinha rabiscado um armistício para situações de emergência. Em vão. O pedaço de papel parecia ter desaparecido.
Exasperado teve um assomo de memória, tinha utilizado o pedaço de papel para travar a perna da mesa da cozinha que não parava de balançar, enquanto ele e a sua Maria comiam a sopita agora servida pelas Irmãs da Caridade, após a brutal redução que sofrera no pré.
- Ó 1º cabo, tente lá mais uma vez, a vez se o gajo se cala para a generala descansar! – ordenou o sargento-mor.
- Está bem, mas agora é à minha maneira – retorquiu o 2º cabo. - Eh pá, ainda estás por aí?
Agoniado e nauseado pelo cansaço e pelo odor que lhe impregnava as truces, o 2º cabo reuniu todas as forças que tinha e, não contendo um segundo fluxo de ventre, respondeu:
- Agora é que é a sério, se não me dizem a senha espeto uns cornos no cabrão do tiro!
- Limpinho, limpinho! – berrou exultante o 1º cabo, convencido que a sua intervenção salvífica um dia seria reconhecida e assinalada com um feriado nacional não comemorado e uma lápide em campa rasa com os seguintes dizeres: “Aqui repousa o abençoado 1º cabo Passos, que nos livrou da troika e que possibilitou uma saída limpa. Pelos relevantes serviços prestados à nação, o povo agradecido derrama lágrimas de reconhecimento.”
Aliviado pela correcção da senha o 2º cabo ergueu os olhos ao céu e glorificou Jesus por mais um campeonato.
- Ok pessoal, avancem que eu vou começar a assar as chouriças. O pipo está ali debaixo dum chaimite. Vão lavar as mãos e sentem-se à mesa.

  


(1)nota do autor:
Apesar das leis da física, da química e do manual de instruções, nem sempre a morte é irrevogável. Que o diga Miguel Relvas que ressuscitou num Congresso da Herbalife, alguns meses após falecimento por arakiri.