20/10/14

Arte e Manhas



Enquanto beberrico um pequeno cálice de ponche, tento em vão concentrar-me. A escrita não se compadece com o turbilhão de ideias e mensagens que gravitam  em torno do cérebro, que chocalham dentro do cérebro. Muitas vezes o problema nem é de “inspiração”, é de síntese. A fronteira entre a verborreia e a legibilidade é tão ténue, que até a inocente cantilena que Lurdes Rata ensaia à capela enquanto engoma as camisas da semana, um dos clássicos da vasta obra de Tony Carreira, se torna num obstáculo quase intransponível. – Tá calada mulher! – grito eu da sala. Lurdes acusa o toque e manda-me à merda, de caminho. Faz-se-me luz – é isso mesmo, é por aí que devo começar: “este Orçamento de Estado é uma merda!”. A adjectivação não é iconoclasta, é mesmo biológica…

Goebells, ou até o trapalhão Mohammed al-Sahhaf, não fariam melhor. A propaganda aos supostos méritos do OGE de 2015 está na rua e faz o seu imperturbável caminho, acolitada por zarolhos, coxos, comentadores, peritos e videntes. As rotativas não dão tréguas e as parangonas sublinham o jackpot: “Cada filho vale 925€ no IRS” (Correio da Manhã); “Alívio fiscal nos salários já em 2015” (Jornal de Notícias); “Pensões médias e altas pagam menos” (Jornal de Negócios); etc etc, etc; apenas a Nova Gente, quase sempre atenta ao mais ínfimo pormenor, prefere um caminho bem mais tortuoso mas não menos aliciante, revelando aos seus leitores segredos de alcova da viçosa monarquia: “D. Duarte tem hipoteca no BES” … apenas ficou por esclarecer se no bom, ou no mau… detalhes…
Não fossem os perigosos marxistas-leninistas, comunistas empedernidos e maoistas ressabiados, Bagão Felix, Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira, a desalinhar, e a procissão seria um passeio pelos media. É inaceitável a forma despudorada como a ministra Luis e os restantes cobradores do fraque, que parece ainda gozarem de boa imprensa (pasme-se), passam uma esponja meio húmida sobre o brutal aumento de impostos, que não vê alívio, sobre a incompreensível fixação de um limite para os apoios sociais, sobre o fim da clausula de salvaguarda do IMI, sobre os inqualificáveis cortes na despesa (com o epíteto de “poupança”), que mais não são do que um desinvestimento colossal nas primordiais funções do Estado (educação, saúde, etc), sobre a tramóia da “fiscalidade verde”, uma espécie de colecta fofinha, ecológica, moderna, que mais não visa do que extorquir o pouco que sobra à carneirada, sob a capa de supostas preocupações de sustentabilidade ambiental. E no topo do monte de esterco, voilà, a poia ainda fumegante: [o orçamento para 2015] “é fiscalmente mais moderado” (dixit Mr. Harry Porttas, ex-defensor dos reformados, dos espoliados, dos contribuintes, dos encalhados e dos portadores assintomáticos de cálculos renais).
Mais uma vez o traço ideológico do orçamento não deixa dúvidas à alvura do algodão e a nova baixa da taxa de IRC sintetiza essa preocupação para com os que mais sofrem com a crise – os grandes contribuintes de IRC, na sua maioria empresas em regime de monopólio ou semi-monopólio, e que também na maioria dos casos não se dedicam à produção de bens transaccionáveis, muitas delas exercendo inclusivamente actividades especulativas. Sejamos sérios, em que é que se traduz a baixa de IRC? Apenas numa coisa muito simples e óbvia, num alívio fiscal para os que mais deveriam contribuir e numa sobrecarga para os do costume. Mas porventura alguém com dois dedos de testa associa a baixa da taxa de IRC na actual conjuntura, à competitividade, ou ao investimento, ou à criação de postos de trabalho? É que se assim fosse, a baixa de IRC de 2013 para 2014 já estaria a produzir efeitos.
Verdade seja dita, quaisquer que fossem as medidas para 2015, haveria sempre por onde pegar. Porque se por hipótese, meramente académica e inverosímil, este governo de saloios diminuísse a carga fiscal, só provaria que tudo o que fez desde o início foi errado, conforme já o reconheceu, o ex-futuro boy do FMI, Vitor Gaspar.
Passos & Portas, as duas faces da moeda deste governo sem crédito não são, de facto, fundamentalistas orçamentais, são apenas cretinos orçamentais. Em bom.


17/10/14

Mais Eça!




- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O emprestimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questão do emprestimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episodio historico!...
O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do prato, e respondeu, com auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar absolutamente. Os emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensavel, tão sabida como o imposto. A unica occupação mesmo dos ministerios era esta - cobrar o imposto e fazer o emprestimo. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o paiz ia alegremente e lindamente para a banca-rota.
- N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusões, meu caro senhor. Nem os proprios ministros da fazenda!... A banca-rota é inevitavel: é como quem faz uma somma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras.
- A banca-rota é tão certa, as cousas estão tão dispostas para ella - continuava o Cohen - que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou tres annos, fazer fallir o paiz...
Ega gritou soffregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionaria constante; nas vesperas de se lançarem os emprestimos haver duzentos maganões decididos que cahissem á pancada na municipal e quebrassem os candieiros com vivas á Republica; telegraphar isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a banca-rota estalava. Sómente, como elle disse, isto não convinha a ninguem.
Então Ega protestou com vehemencia. Como não convinha a ninguem? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! Á banca-rota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um paiz que vive da inscripção, em não lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou procedendo apenas por vingança - o primeiro cuidado que tem é varrer a monarchia que lhe representa o calote, e com ella o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida, da velha gente, d'essa collecção grotesca de bestas...
A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de grotescos, de bestas, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia mediocres e patetas, - mas tambem homens de grande valor!
- Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Você deve reconhecel-o, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha saber.
E, lembrando-se que algumas d'essas bestas eram amigos do Cohen, Ega reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porém cofiava sombriamente o bigode. Ultimamente pendia para idéas radicaes, para a democracia humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo pararello: queria uma republica governada por genios, a fraternisação dos povos, os Estados Unidos da Europa... Além d'isso, tinha longas queixas d'esses politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacção, de café e de batota...
- Isso, disse elle, lá a respeito de talento e de saber, historias... Eu conheço-os bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
- Não senhor, Alencar, não senhor! Você tambem é dos taes... Até lhe fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, há talento, ha saber.
E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira casa da rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito - admittiu que não deixava de haver talento e saber.
Então, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos rebeldes ao respeito dos Parlamentares e á veneração da Ordem, Cohen condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz necessitava reformas...
Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.


“O Maias”

Eça de Queiroz

(1888*)


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* de 1888 para 2014… é só fazer as contas…



07/10/14

Confesso-me agnóstico








Pedi à Lurdes Rata que me fosse buscar o espremedor dos limões e tentei a minha sorte. Quase nada. Apenas meia dúzia de pequenas gotas escorreram para a base do espremedor. Talvez tenha utilizado o equipamento errado, pensei cá para comigo. Vou tentar a centrifugadora Moulinex. Talvez tenha mais sorte. Talvez a força centrifuga consiga o milagre de transformar os chavões pré-cozinhados, soprados por um qualquer guru pós-moderno, em meio decilitro de sumo. Já não peço mais…

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Ora pensava eu que uma identidade se construía ao longo de anos, com base no ADN herdado e em resultado daquilo que são competências técnicas (e artísticas) adquiridas e consolidadas ao longo de diversas gerações. Ora pensava eu que a Marinha Grande era única e irrepetível pelo património industrial (e cultural associado) acumulado ao longo de anos e anos de trabalho árduo e de empreendedorismo autêntico. Ora pensava eu que todo o trabalho se devia concentrar num esforço autêntico e genuíno para recuperar, preservar, manter, desenvolver e elevar a patamares superiores de excelência aquilo em que orgulhosamente nos revemos e em orgulhosamente somos competentes, a nossa verdadeira identificação colectiva. Quando, por artes mágicas - abra-cadabra - descubro que a mudança de identidade se pode decretar através de uma simples intervenção plástica, estética, em resultado da manipulação em laboratório, uma espécie de identidade proveta trazida á luz do dia por estrangeirados e iluminados.
Não sou contra a modernidade nem contra novos conceitos. Não sou contra o design nem contra novas tendências. Não sou contra a engenharia nem contra a investigação e desenvolvimento. Mas sou absolutamente contra uma política pacóvia de destruição dum património secular, sobretudo por omissão, rendida a uma suposta visão redentora duma nova identidade, um espécie de desígnio colectivo que não tem qualquer suporte, nem económico, nem social, nem político, e que, acima de tudo, não encontra o mais pequeno eco na prática duma equipa que lidera de forma amadora e casuística os destinos da nossa amada terra.
“Que se deixe cair a Capital do Vidro e dos Moldes “ – proclamou o rei! – “Mandem anunciar por todo o reino que de agora em diante seremos o Centro de Engenharia & Design. E agora vou-me retirar que estou estafado! É que esta coisa de perspectivar o vosso futuro é uma coisa que me consome muita energia! Não é Vitinho?”



25/09/14

Ora Eça!



O Deputado Pedrosa, um fulano cordato e perspícuo, que arrota azia a Medeiros e que cita Dumas e Jorge Jesus enquanto vibra de fervor num idílico campo de papoilas saltitantes, decidiu dar à estampa no seu pasquim virtual face-to-face, um terno momento de reconciliação e de indulgência. De elevada nota artística. Atentemos pois à coisa dita:

Uma moldura humana impressionante ontem no jantar de Antonio José Seguro em Lisboa, mais de mil pessoas na iniciativa. Apesar da angústia por um partido dilacerado, há também aspectos positivos, nota-se uma grande adesão em ambos os lados, iniciativas com centenas e mesmo milhares de socialistas e simpatizantes, o que dá ao dia 29 de Setembro um sinal de esperança ou não fosse, claro está, este o meu dia de aniversário.

Embaçado pela significância e pela delicada acutilância da prosa, entre o coice de mula velha e a doçura do mel de rosmaninho, recordei o velho Eça na sua sublime e magistral obra prima “Os Maias”, a qual me atrevo a copiar, cuidadosamente:

Citou então o exemplo do Gouvarinho: alli estava um homem de occupações, de posição politica, nas vesperas de ser ministro, que não só ía ao baile, mas estudara o seu costume: estudara, e ía muito bem, ía de marquez de Pombal!
- Reclame para ser ministro, disse Carlos.
- Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro: tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!...
E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
- Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo!


19/09/14

Bolsa. De valores?


Com o ar fresco e jovial duma manhã sombria de fim de verão, o pivot mal-dormido anunciou a menina da Reuters, que iria trazer as mais serenas e apaziguadoras notícias dos mercados - hoje, dezanove de Setembro do ano da desdita de dois mil e catorze, os mercados “abriram em alta”.
Cunha Lima, a menina da Reuters, confirmando a deixa do mal-dormido, reiterou a abertura dos mercados em alta, justificando o facto com a vitória do “não” no referendo na Escócia. Mais, disse a menina Cunha Lima da Reuters, que os mercados reagem positivamente à estabilidade política, penalizando as situações de incerteza, como supostamente seria o caso da vitória do “sim”.
É sempre bom acordar a uma sexta-feira dezanove de Setembro do ano da desdita de dois mil e catorze, e saber, através da menina da Reuters, que os mercados gostam de “estabilidade” e que têm “reacções”. Tanto mais tranquilizante, para um país com uma dívida pública à volta dos 134% do PIB…
Por uma questão de preguiça intelectual, poderia até ficar sossegado a ruminar as "boas novas" da menina da Reuters numa manhã de sexta-feira, em vésperas de fim-de-semana chuvoso, ou até, e porque não, ter uma qualquer reacção vagal como aquelas que o Sr. Silva experimenta quando o assunto não lhe convém.
Contudo, a bem da minha higiene mental, prefiro a inquietude estimulante que me provoca o exercício físico dos dois neurónios e meio com que o criador me equipou o córtex frontal, e ler as entrelinhas. De facto, o que a menina da Reuters disse foi aquilo que todos sabemos e que é em grande medida uma das principais razões da nossa desgraça colectiva, é que os mercados, tal como os fungos, necessitam de um ambiente propício para se desenvolverem, reagindo mal a um fenómeno físico-químico cada vez mais posto em causa que dá pelo nome de “democracia”. O problema dos mercados não é a instabilidade, porque é nessa instabilidade, sobretudo social, que encontram a matéria orgânica essencial ao seu obsceno crescimento, através de processos de decomposição. Tal como o fungos.
O problema dos mercados é que convivem muito mal com o facto de cada um de nós ter um pequeno quinhão de responsabilidade, e de possibilidade, de mudar o rumo da história. E isso é uma coisa que os irrita profundamente, pois a “racionalidade” (dos mercados) não se mede em sabedoria nem em conhecimento, mede-se em lucro. Para quê a democracia política, se a “democracia económica” lhes basta?
Bom fim de semana e não fiquem muito a pensar nisso.
Olha, bem jeitosa, a menina Cunha Lima. Da Reuters.



17/07/14

"Ser ou não ser, eis a questão"


Na sua famosa peça ”A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, William Shakespeare tratou de colocar a fasquia bem alta. Elevou o patamar da discussão da mera bagatela do “ser” e do “perecer” dispensada a Pompeia Sula, mulher de Júlio César, uma fulana esbelta e arisca que numa famosa orgia báquica por si organizada se pôs a jeito de engalanar o legítimo com armação de cervato, para o nível da afirmação ou da negação da competência e da consequência. A verdade é que se é, ou não se é. Não há volta a dar. Ou se é competente e capaz ou se é incompetente e incapaz, não há meio-termo.
Por isso, hoje não ficaria de bem com a minha consciência se não assumisse absolutamente o repto de Shakespeare e manifestasse de forma peremptória o que penso e sinto, tornando-me cúmplice por omissão. Como não quero ser hipócrita digo-o sem quaisquer pruridos: o actual executivo camarário é talvez o pior executivo que nos governou desde o 25 de Abril. Não pelo voluntarismo nem pela vontade, antes pela falta de visão estratégica, pela falta de capacidade de liderança, pela falta de atitude auto-crítica e pela inércia. Uma desgraça…
Não. Não me refiro a questões de lana-caprina que atafulham pasquins e redes sociais. Refiro-me antes a um rumo com sentido e a uma atitude que antecipe cenários e ponha no centro da agenda as questões que efectivamente são fulcrais e estruturantes para o concelho. E são muitas. Quais as reais preocupações deste executivo relativamente às condições de desenvolvimento da actividade económica do concelho? Quais as reais preocupações deste executivo relativamente à qualidade de vida proporcionada à sua população? Quais as reais preocupações deste executivo relativamente à projecção do concelho no panorama nacional e no contexto europeu? Quais as reais preocupações deste executivo relativamente à gestão da água? À gestão da malha urbana?...
Infelizmente não encontro respostas pelas simples razão de que para este executivo tudo é muito complicado e qualquer opinião diversa resulta numa perigosa deriva insurgente. Infelizmente este executivo não dá mostras de que é [capaz] - não percebe que a política e o serviço público devem ser servidos com grande competência, rigor e humildade, não compreende que gerir é pensar, decidir, planear, executar e controlar, não entende que um executivo municipal não se pode esgotar num qualquer comité de organização de eventos pontuais e desgarrados (já para não dizer que muitas das vezes, desfasados, da realidade).
Erro de casting? Falta de qualidade da classe dirigente e política? Falta de exigência dos munícipes? Interesses? Mesquinhez? Sede de poder? Talvez tudo isso ou o seu contrário.A verdade é que Shakespeare tinha razão: “ser ou não ser, eis a questão”. E neste caso, para mal de todos nós, é “não ser” [competente].



24/06/14

Estaleiros de Campinas




De forma ritmada e com a precisão dum ourives de Viana, o chefe de equipa ía solicitando com voz roufenha de cachaça e tabaco, os instrumentos de que necessitava para reparar as secções danificadas.
A cada solicitação do chefe os serventes acenavam de imediato com o utensílio, gritando com sotaque vincadamente alemão – “Prronto!”
- Serrote!
- Prronto!
- Chave inglesa!
- Prronto!
- Rebarbadora!
- Prronto!
- Óleo!
- Prronto!
- Martelo!
- Prronto!
- Eu disse martelo, porra, não disse marreta!
- Prrontos, desculpe...
- Desculpe a prima. À conta destes enganos dei cabo dum que estava quase bom!…
À fina ironia do chefe, respondeu toda a equipa com uma monumental gargalhada. O chefe era especialista em tiradas humorísticas assertivas e perspicazes. Considerava mesmo que, em vez de anos e anos a queimar as pestanas, poderia perfeitamente ter vingado no stand-up.
- Ó chefe, e daquela vez em que pusemos pastilha Gorila nos travões do gajo? – recordou um dos serventes.
Imitando o sotaque do xerife de campo, num subtil sibilar de sopinha-de-massa, o chefe dos estaleiros atirou nova graçola:
- Aqui trabalha-se… com tranquilidade… com tranquilidade…
Nova risada geral.
A humidade e o calor tornavam o ar irrespirável e faziam toda a equipa suar em bica, obrigando a algumas paragens técnicas para hidratação, com choupinhos, caipirinha e shots de cachaça de jambu, aliás, os mais apreciados pelo chefe de equipa, que também não dispensava um bom forró como música ambiente para lhe aumentar “os índices de concentração”.
Volvidos alguns minutos de aturado trabalho de recuperação, o chefe chamou um dos directores de serviço, um baixote de madeixas aloiradas experiente em cenas de pugilato com árbitros, e deu-lhe indicações precisas:
- Este está pronto. Leva-o para o balneário e diz ao Bento que, pelo menos um quarto de hora funciona. Depois disso, não garanto nada.
- Mas sempre se arranjam onze? – retorquiu o baixote.
- Olha-me este. Onze? Ò menino, nem tu sabes o que eu consigo improvisar com material em segunda-mão.
Toda a equipa de serventes respondeu de imediato com uma solidária gargalhada forçada.
Colocaram Postiga no porta-paletes e ficaram a admirar o baixote desaparecer no corredor empurrando o carrinho com afinco.
Um dos serventes, que há alguns minutos atrás rira de forma desbraga, mas que não tinha percebido o alcance da piada, remoendo a frase enigmática solicitou uma aclaração:
- Ó chefe, aquela da marreta… foi na cabeça do Pepe, não foi?



10/06/14

Abanou, mas não caiu!


De súbito sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Nem mesmo no famigerado dia em que Paulinho decidira tornar irrevogável o primeiro divórcio registado em Portugal entre pessoas do mesmo sexo, sentira algo semelhante - um frémito que lhe percorria a espinha e lhe entaramelava a língua, tornando turva a realidade e fazendo-lhe cair sobre os ombros uma responsabilidade que juraria não ser sua.
Pressentindo o inevitável, suspendeu a lenga-lenga, revirou os olhos, bufou, vacilou e por fim deixou-se cair suavemente e em segurança nos braços fortes e peludos do oficial de serviço.
A alguns passos de distância Pedro não esboçou sequer um reflexo de socorro, demonstrando um auto controlo digno de registo – era preciso manter a pose e um verdadeiro homem de Estado não vareja! Ainda olhou de esguelha para o presidente do Constitucional, que ao seu lado se entretinha a tirar chumbo das unhas, mas este também na reagira.
Na plateia, Nogueira e os sete anões que o acompanhavam e que desde o início da função não tinham parado sossegados um minuto, exultava de contentamento, convencido de que as palavras de ordem que gritavam desde o início se haviam tornado no feitiço que começava a derrubar o regime. Nogueira sentia-se um autêntico Harry Potter, agora mais do que nunca, convencido dos seus próprios poderes. Talvez até quando saísse dali fosse lançar uma macumba sobre o mundial e, num passe de mágica, paralisar todo o metro de S. Paulo. A ideia pareceu-lhe excelente e exequível. Coincidência ou não no Brasil os metroviários agitaram-se, confirmando o ditado - Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay...
Percebendo que o momento era de emergência o mais alto graduado tomou posse administrativa do micro e, anunciando que falava na qualidade de guarda-freios, pediu aos sete anões “mais respeito” pela instituição e informou a populaça que eram horas de “damas ao bufete”. Seguro, sentido que iria de novo ser apanhado desprevenido, apalpou atrapalhadamente os bolsos do casaco cerzido com fina seda afegã, na ânsia de encontrar uns trocos para pagar uma gasosa a Costa. Felizmente haviam sobrado setenta e cinco cêntimos da última campanha para as europeias. Mas eram os últimos e Seguro sabia da insaciável sede de Costa.
Enquanto isso, em Santarém, entre um tinto e duas rodelas de paio, Jerónimo, informado do sucedido através de um velhinho mas seguro “oki-toki” do tempo da guerra-fria, acendia uma velinha a S. Bento pela saúde do enfezado e pela queda do governo.
Cavaco, já todos percebemos, não é pressionável nem impressionável, de acordo com as palavras do próprio. Mas a sua vulnerável condição humana não o livra duns abanões da mãe natureza, sempre sabia e atenta – “Acorda Cavaco, cumpre com as tuas obrigações e deixa-te de achaques! Afinal de contas és um homem ou és um rato?”
Após alguns minutos de minuciosa inspecção por um perito militar em minas e armadilhas, Cavaco voltou mais fresco e leve do que nunca, ignorando por completo todo o enquadramento - um povo que sofre e um país que se afunda sem esperança, às mãos de uma corja de incompetentes! Porém, retomando a palavra citou Camões:

“Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assim sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!"

Viva Portugal!
Viva!


Piada de Caserna


Com o chumbo pelo Tribunal Constitucional dos novos cortes nos subsídios dos funcionários públicos, dos temporariamente doentes, dos sem emprego e dos sobreviventes, o governo procura medidas alternativas para cobrar a receita “roubada” pelos implacáveis juízes do palácio Ratton. Em cima da mesa estarão já algumas medidas substitutivas, nomeadamente relativas a mais cortes na saúde.
De acordo com rumores, Passos Coelho e Paulo Macedo estudam já a possibilidade das endoscopias e das colonoscopias serem substituídas por selfies. Parece-me bem. Se quiserem até me ofereço como voluntário para os primeiros testes. Uma polaróide ao vesgo não custa nada e até evita a intolerável invasão do atrevido tubinho.
E para que a selfie fique mais composta estou até a pensar em deixar crescer a barba, que é como quem diz, e tatuar o Cavaco e Silva numa nalga e o Bruno do Carvalho na outra. Modernices...


06/06/14

Micro-deuses





“Um líder à altura... António Costa: o mesmo que foi eleito para o PE e esteve lá apenas um ano. O mesmo que deixou de ser Ministro para ser Presidente da CML e agora, meses depois de ter afirmado que estaria em Lisboa com 'os dois pés' já está de malas aviadas para o Largo do Rato.
Oportunista, tacitista, maquiavélico e sei lá que mais não auguram nada de bom para um Líder partidário.”

(comentário do Sr. N. Araújo no faceboock do deputado Dr. Feteira Pedrosa)

É que até apetece citar o Criador: “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. Não é assim senhor ex-prior?



23/05/14

Voto útil



- Lurdes!?
- Humm…
- Não te esqueças que domingo há eleições.
- E o qu’é qu’eu tenho a ver com isso?
- Tens de ir votar.
- Eu? Votar? P’ra quê? Esses camelos são todos iguais, só querem é tacho.
- Não consegues entender a importância do teu voto?
- É p’rá cambra?
- Não, é para o Parlamento Europeu.
- Isso é lá da Lombarda ou o carago? Que se quilhe…
- Não é Lombarda é Bruxelas.
- Ou isso, eu sei qu’é nome de couve. Que se quilhe…
- Caso ainda não tenhas percebido, estas eleições são talvez as mais importante. Porque hoje em dia tudo o que se passa cá tem a ver com o modelo de União Europeia que temos e que desejamos para o futuro. Tem a ver com a moeda única, com os tratados, com as directivas, com as políticas comuns, com as…
Lurdes Rata, que estava sentada no sofá da sala a passajar meias, levantou a cabeça e fuzilou-me com o olhar míope dum microtus lusitanicus, interrompendo o meu discurso apologético da democracia participativa e da cidadania responsável.
- Oiça cá, já reparou que tem os peúgos todos rotos e coçados? Esta porra dá uma trabalheira a passajar que já me doem os olhos e as cruzes.
- Pois é Lurdes, nunca irás perceber o que realmente está em causa.
- E você percebe? Vá-se quilhar.
Irritado, virei-lhe costas e saí porta fora para o patim.
Contente por me ver, o canito atirou-se a mim à procura duma festa, enchendo-me  as calças, lavadas e impecavelmente vincadas pelas Lurdes Rata, de lama, de odor e de pelo de cão. “Não vale a pena dar água a quem não tem sede” – pensei para comigo. Afinal de contas no próximo domingo o Marquês de Pombal estará vazio e não haverá directos com militantes eufóricos a exultarem de alegria por mais uma vitória. Ainda bem que Soares, a quem o umbigo não pára de crescer, leu o meu último post e logo à tarde fará jejum. Melhor seria que no domingo também fizesse abstinência. Talvez assim Seguro tivesse um lampejo de Sentido de Estado e Costa uma epifania. Não me parece. Seguro sonha ser primeiro-ministro e Costa presidente do glorioso e dos pasteis. Basta assim. A ditadura europeia a 28 agradece de forma reconhecida a generosidade dos spreads, o que para a Lurdes Rata é perfeitamente indiferente. O pior é a conta da luz ao fim do mês…



12/05/14

Ensaio Político

  
Entre duas notícias de desgraças humanas, a pivot do jornal das oito lê a nota de rodapé do início da campanha eleitoral para as europeias, seguindo-se as habituais imagens das procissões de arciprestes, acólitos e paisanos, beberricando espumante e mijo de burro em púcaros de alumínio, servidos por diligentes escanções localmente bem aparelhados.
É bem certo. As campanhas eleitorais são cada vez mais como as épocas de saldos, começam muito antes da data marcada e apenas servem para despachar stock. Vai-se falar de tudo menos do tema. Porque a europa é uma miragem, lá longe, e porque a paróquia está à tripa-forra e quer despachar a quadrilha que tem franqueado a porta ao saque. Mas para serem substituídos por quem, senhores? Pelo Tó Seguro, o anémico secretário-geral do maior partido da oposição que se arrisca a ser primeiro-ministro sem saber contar nem soletrar?
É bem certo. Só vejo uma forma do maior partido da oposição, que se arrisca a indicar o próximo primeiro-ministro, perceber as suas mais profundas responsabilidades e a delicadeza do momento – levar uma tareia vexatória no próximo dia 25 de Maio.
É que se assim não for, Dupont vai suceder a Dupont, e uma mão lava a outra e as duas lavam o vesgo. E a malta continuará atolada até ao pescoço. Ou como diria o génio Lopes Graça – ACORDAI! ACORDAI! ACORDAI!...



26/03/14

Limpinho, limpinho!




- Quem vem lá faz alto! – berrou inseguro o 2º cabo, segurando desajeitadamente a G3 nas mãos trémulas e apontando-a sem grande convicção em todas as direcções.
A noite, escura como breu, não deixava enxergar um palmo à frente do nariz. O silêncio, apenas entrecortado pelos pios das aves nocturnas, que mais se assemelhavam a gritos lancinantes de almas depenadas pela maldita crise, tinha-lhe permitido identificar no sonar do instinto de sobrevivência o ruído de passos furtivos na sua direcção. A brilhante moleirinha do 2º cabo Seguro recordava agora a utilidade de todos os ensinamentos que recebera durante a recruta Jota - “Se o cabrão se aproximar de ti e não disser a senha, espeta-lhe um tiro nos cornos! Há divergências que são insanáveis e só a morte é irrevogável(1). Nunca te esqueças que a hesitação é a morte do artista e um gajo tem de se mostrar sempre confiante!”.
Do outro lado uma voz folgazona cantarolou com timbre de barítono:
- Calma pá, sou eu, o 1º cabo Passos, pá!
- A senha! – gritou o 2º cabo, à beira dum ataque de nervos – Se dás mais um passo nos cornos espeto-te um tiro no cabrão!
A tensão condicionava-lhe o raciocínio e a fórmula de guerra, repetida vezes sem conta pelos instrutores do aparelho, saia-lhe da boca de forma desordenada. Do outro lado ouviram-se risinhos.
Os segundos que se seguiram pareceram-lhe uma eternidade. Porventura teria coragem para disparar?
Após alguma hesitação, do outro lado do breu o 1º cabo Passos, que se fazia acompanhar pelo sargento-mor Silva, voltou a tentar quebrar o gelo:
- Eh pá, baixa lá a bazuca a que gente só quer dar dois dedos de conversa, pá.
Como um autómato o 2º cabo Seguro ripostou com a firmeza dum guerreiro pigmeu:
- Repito, senão dizes a senha espeto-te uns cornos no tiro do cabrão!
Do outro lado nova risada.
- É pá, a senha é… a senha é… é… hi, hi, hi…
Pressentido que a coisa podia descambar e que ambos podiam explodir de riso a qualquer momento, o sargento-mor puxou dos galões baços de sebo e segredou ao 1º cabo Passos:
- experimenta “programa cautelar”.
Embora a contra gosto, o 1º cabo colocou a voz e cantarolou a suposta senha, como se estivesse a representar numa revista de madame La Féria:
- Prontos pá, programa cautelar. Estás satisfeito?
Do outro lado da noite ouviu-se uma descarga intestinal inusitada.
Não reconhecendo a senha como válida e pressentindo que teria de tomar uma decisão complicada, o 2º cabo Seguro acabara de sujar as truces imaculadas que recebera de espólio na última refrega com o furriel Costa.
Tentando recompor-se e assumir de novo uma atitude ofensiva de táctica defensiva, o 2º cabo tapou as narinas com o polegar e o indicador, berrando com voz anasalada e com quanta força tinha, o que ainda tornou o ultimato mais hilariante para os seus interlocutores:
- Último aviso: ou dizem a merda da senha, ou o cabrão dos cornos espetam-se no tiro!
Sentindo o odor a fezes moles e temendo uma recaída da moral dos investidores, o sargento-mor tentou uma vez mais assumir o controlo da situação. Colocou as mãos em concha à volta da boca para amplificar o som e vociferou para o escuro, alto e bom som:
- Camaradas subalternos, deixem-se mas é de brincadeiras e entendam-se lá que eu não tenho a noite toda para estas pintelhices. A conversa já me está a cheirar mal e já não tenho idade para andar ao relento até tão tarde. Acho que já apanhei um resfriado. Por acaso alguém tem por aí uma pastilha para a garganta? De preferência com sabor a laranja. Hum?
Pressentindo que o tempo se esgotava e que não lhe restava outra alternativa, o 2º cabo tentou ensaiar a melhor saída:
- Não volto a avisar, ou me dizem a puta da senha ou… - a frase foi interrompida pela voz esganiçada da generala Angela que tentava descansar numa tenda montada a um bom par de metros da linha de frente.
- Pouco barrulho que eu prreciso de descansarr a cabeça! Se continuam a fazerr barrulho mando-vos darr uns açoites e corrtarr na rração!...
- Outra vez? – questionou entre dentes o 2º cabo.
- Algum prroblema 2º cabo? – retorquiu a generala, que tinha ouvido de tísico.
- Nenhum, senhora generala. Eu só queria mesmo era saber a senha…
Apercebendo-se que o precipício estava a um passo, o sargento-mor procurou no bolso do camuflado um pedaço de papel onde tinha rabiscado um armistício para situações de emergência. Em vão. O pedaço de papel parecia ter desaparecido.
Exasperado teve um assomo de memória, tinha utilizado o pedaço de papel para travar a perna da mesa da cozinha que não parava de balançar, enquanto ele e a sua Maria comiam a sopita agora servida pelas Irmãs da Caridade, após a brutal redução que sofrera no pré.
- Ó 1º cabo, tente lá mais uma vez, a vez se o gajo se cala para a generala descansar! – ordenou o sargento-mor.
- Está bem, mas agora é à minha maneira – retorquiu o 2º cabo. - Eh pá, ainda estás por aí?
Agoniado e nauseado pelo cansaço e pelo odor que lhe impregnava as truces, o 2º cabo reuniu todas as forças que tinha e, não contendo um segundo fluxo de ventre, respondeu:
- Agora é que é a sério, se não me dizem a senha espeto uns cornos no cabrão do tiro!
- Limpinho, limpinho! – berrou exultante o 1º cabo, convencido que a sua intervenção salvífica um dia seria reconhecida e assinalada com um feriado nacional não comemorado e uma lápide em campa rasa com os seguintes dizeres: “Aqui repousa o abençoado 1º cabo Passos, que nos livrou da troika e que possibilitou uma saída limpa. Pelos relevantes serviços prestados à nação, o povo agradecido derrama lágrimas de reconhecimento.”
Aliviado pela correcção da senha o 2º cabo ergueu os olhos ao céu e glorificou Jesus por mais um campeonato.
- Ok pessoal, avancem que eu vou começar a assar as chouriças. O pipo está ali debaixo dum chaimite. Vão lavar as mãos e sentem-se à mesa.

  


(1)nota do autor:
Apesar das leis da física, da química e do manual de instruções, nem sempre a morte é irrevogável. Que o diga Miguel Relvas que ressuscitou num Congresso da Herbalife, alguns meses após falecimento por arakiri.



19/12/13

O presente de Calimero



Pedi (aliás, supliquei) ao Pai Natal inspiração, engenho e arte, para escrever um conto de Natal que tocasse o coração dos resistentes que ainda visitam incógnitos este antro do Vigário. Mas o ansião dos sonhos recusou satisfazer o meu desejo, que apenas pretendia retribuir a amizade que devo a esses meus amigos virtuais – “Este ano portaste-te mal, Relaxoterapeuta!” – proferiu com olhar distante e frio.
- A soberba tolheu-te a razão e a gula insuflou-te o abdómen! Não apoiaste ninguém nas autárquicas, mas depois defendeste a governabilidade com uma coligação entre o PS e a CDU. Escreveste textos arrogantes e imperceptíveis. Foste à FAG e abusaste da poncha. Ridicularizaste o jornal da cidade e o seu director. Não deste aumento à Lurdes Rata. Desejaste a mulher do Arlindo. Foste jocoso com o deputado da nação. Zurziste no Cavaco. Gozaste com o primeiro ministro e com os seus colegas. No fim de semana passado foste ao Museu do Vidro, à Galeria Municipal e à exposição sobre a Indústria de Moldes, apenas porque a entrada era grátis. Não escreveste um post sobre a morte de Mandela. Foste insensível a todos quantos à tua volta desenvolvem projectos sociais de forma desinteressada. Não disseste uma palavra sobre a legítima aspiração do Tocandar a terem um espaço digno para levarem por diante o seu meritório projecto. Enviaste pedidos de amizade no facebook sem te identificares. Ficaste calado por longos períodos e noutros não conseguiste conter a verborreia e o atrevimento. Em tudo viste motivo de chacota e de escárnio. Querias agora a recompensa, era?
Há momentos em que não nos apetece olhar o espelho com medo de nos vermos. Sobretudo com o distanciamento dos olhos dos outros. O orgulho porém impeliu-me a jogar a última cartada:
- O Pai Natal sabe por acaso que o Conselho de Ministro aprovou hoje o aumento da idade da reforma e que o meu amigo vai ter de andar a distribuir beijos e prendas a garotos ranhosos, e a apanhar bosta de rena com vassourinha e pá, até perfazer a bonita idade do Manoel de Oliveira, e com direito apenas a uma caneca de café e meia carcaça dura?
Os olhos do Pai Natal toldaram-se de sangue e revolta. Indignado, procurou no saco das prendas um pequeno frasco de vidro.
- Toma filho, faz bom proveito!
Agarrei no frasco e li o rótulo:  “Inspiração para Crónicas de Escárnio e Maldizer”.


13/12/13

Imaginário natalino




Afinal o Pai Natal existe. Mais, também existe uma Mãe Natal. Estiveram ontem em amena cavaqueira com Pedro Manuel, no Palácio encantado de São Bento, enquanto na sala ao lado Popota ouvia atenta Paulo Sacadura, companheiro de brincadeiras de Pedro Manuel, desabafar com mágoa que nem à macaca se consegue brincar com António José, o colega de recreio taciturno e infeliz que nunca está satisfeito com nada. Coisas de miúdos.
A conversa de Pedro Manuel com o casal Natal correu tranquila e serena. Sem grandes sobressaltos. Sem grandes embaraços.
Pedro Manuel mostrou-se confiante e seguro dos seus sonhos, falando dum país de fantasia, onde fadas e duendes empreendem, a cada segundo que passa, o grandioso milagre da recuperação económica, apesar das investidas dos dragões da bruxa Lagarde e dos ogres de Frankfurt e de Bruxelas. Mas, cuidado! É preciso não baixar a guarda! Porque apesar do caminho traçado nos levar inevitavelmente até Alice e a esse maravilhoso mundo onde tudo é possível, incluindo a diminuição dos impostos sobre o rendimento das pessoas e a reversão dos cortes de salários e pensões, é necessário manter (quem sabe reforçar) uma dieta rigorosa, sob pena do aumento de gorduras nos voltar a precipitar ladeira abaixo, pela força da gravidade dum Estado mãos-largas. Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e Pedro, no zénit da sua prodigiosa imaginação, sabe do que fala.
Pai Natal e Mãe Natal parecem esmagados pela prosa ponderada e pela quase obscena clareza com que Pedro Manuel esmiuça conceitos complicadíssimos e intricadas equações. Já não têm dúvidas, Pedro Manuel merece a prenda que lhe trouxeram, um monólogo criativo sem qualquer contraditório ou réplica de reposição dos factos. Terá certamente um futuro brilhante. Com toda a certeza passará com distinção qualquer prova oral. A menos que as renas se rebelem e no lugar do casal Natal coloquem dois jornalista (a sério) que perguntem a Pedro Manuel o que realmente todos queremos saber – o que é que ele fez com o enorme saco de gomas que lhe “demos”.



11/12/13

Dialéctica



  
É claro que para quem não tem a mínima noção do que é “planeamento”, falar em Plano B não fará qualquer sentido. Mas será mesmo assim?
Por vezes a realidade demonstra-nos o contrário, a existência de Plano B não resulta propriamente de uma visão estratégica e lúcida da forma como pretendemos antecipar e acautelar eventuais contingências, mas antes como resultado e consequência dos próprios acontecimentos, substituindo-se assim a acção opcional pela reacção condicionada. Senão vejamos. O governo continua a negar a existência de qualquer Plano B para a eventualidade do chumbo, pelo Tribunal Constitucional, de algumas medidas contidas no Orçamento de Estado para 2014. Mas será mesmo verdade? Não, não é. O plano B do governo é António José Seguro. Assim como Mário Soares é o Plano B do PS, os Estaleiros de Viana o Plano B da Martifer ou a coligação PS/CDU o Plano B dos Pereiras (Álvaro & Vitor).
A actual situação do país deixa-me profundamente inquieto. Mas as alternativas que se vislumbram no horizonte ainda o tornam mais negro.
O melhor mesmo é ir comprar 605 Forte para accionar o meu Plano B e ir desta para melhor, caso a hipocrisia do Sr. Silva persista em considerar a democracia como o Plano C ou D para a regeneração política do regime, e caso nós, o povo sofredor, brando e cordato, continuemos impassíveis a assistir ao funeral de Mandela, bebendo minis e comentando a triste figura do Sr. Silva a descascar cebolas e a espalhar diplomacia barata.



06/12/13

Pepe Rápido Show



Há seis dias atrás o deputado Pedrosa escrevia assim no facebook:
“Quinta-feira, dia 5 de Dezembro, o Secretário-Geral do PS, António José Seguro, vem a Leiria expressamente para ouvir a opinião de um grupo de empresários sobre a reforma do IRC. É assim, com os intervenientes que se devem construir as boas propostas políticas.”
Há dois dias atrás o deputado Pedrosa escrevia assim no facebook:
“Na próxima quinta-feira o Secretário-Geral do PS vai ouvir empresários da região de Leiria sobre a reforma do IRC. Uma forma diferente de apresentar propostas políticas, ouvindo os intervenientes. É às 21 h no Hotel Eurosol em Leiria.”
Foi, portanto, ontem à noite.
Hoje de manhã li a seguinte notícia no Expresso on-line:
“PS só aceita baixar IRC depois do IVA e do IRS
A proposta socialista faz parte de um elenco de dez que o PS entrega hoje na Assembleia da República, no âmbito da reforma do IRC.” (continuar a ler)

Conclusão:
António Seguro trabalhou noite dentro, para construir boas propostas políticas que resultaram da auscultação de ontem à noite a um “grupo de empresários” da região, e cujo prazo limite de entrega ao Expresso, era esta madrugada, e na AR, durante o dia de hoje.
Os meus agradecimentos ao Sr. Seguro, por se ter deslocado expressamente. E por se ter deitado tarde.
Vá lá, agora vá descansar um bocadinho que o deputado Pedrosa trata do resto.


04/12/13

Estado Malandro


A propósito desta notícia (via facebook da Irene Constâncio), recupero um post que escrevi em Novembro de 2010, intitulado Banco Alimentar.
Infelizmente o texto continua actual, com uma única excepção, as taxas de IVA, que entretanto aumentaram.




27/11/13

A classe do argumentário



  
Extracto da acta nº 22, relativa à reunião ordinária da Câmara Municipal da Marinha Grande realizada no dia 25/10/2013, disponível no site da CMMG.

(…)
3 - DESPACHO N.º 285/GP/AP/2013 – DESIGNAÇÃO DO ADJUNTO DO GABINETE DE APOIO À PRESIDÊNCIA
Para os devidos efeitos, na sequência da instalação da Câmara Municipal da Marinha Grande para o quadriénio de 2013/2017 e na qualidade de Presidente, dou conhecimento ao digníssimo órgão executivo, que através do meu despacho n.º 285/GP/AP/2013, de 22 de outubro, designei para exercer as funções de adjunto do meu gabinete de apoio, o Senhor Amândio João Paula Fernandes.
(…)
O Sr. Vereador António Santos acrescentou que apesar de conhecer mal o nomeado [Sr. Amândio Fernandes], também achou que não terá o perfil adequado, uma vez que os tempos que aí vêm exigem pessoas com saber e saber fazer, e com um saber estar, o que lhe parece que não é o caso, pelo menos a julgar pelos debates durante a campanha eleitoral, questionando se pelo facto de ter a 4.ª classe terá competência para analisar os projectos QREN.


Confesso que quando li este extracto da acta de reunião de câmara em que o Sr. Presidente Dr. de Farmácia Álvaro Pereira, dava conhecimento à restante vereação de ter nomeado o Sr. 4ª Classe Amândio Fernandes para adjunto do seu gabinete de apoio, fiquei… confuso.
Tal como havia feito o Sr. Comendador Martins em entrevista ao jornal local, o Sr. Vereador Dr. de Direito António Santos, começa o seu argumentário com uma premissa no mínimo conflituante com a apreciação de falta de perfil que faz de seguida. Ora, se alguém não conhece bem outra pessoa, como pode fazer julgamentos de adequação de perfil e (pasme-se) de postura (“saber estar”)? Fácil, basta ter em devida conta os debates em que o visado terá participado na última campanha eleitoral e o seu pré-histórico grau de instrução escolar, para se perceber que, para além de vendedor de consultas à porta do Centro de Saúde, arrumador de carros ou simplesmente escriva de blogue anónimo, o sujeito não tem capacidade para o lugar. E muito menos para “analisar projectos do QREN” que, como é do domínio público, não é tarefa para qualquer cabecinha.
É contudo no mínimo estranho, que o Sr. Vereador Dr. de Direito António Santos não tenha invocado no seu argumentário, a eventual falta de currículo do nomeado, para a adequação à função.
Como também não conheço o senhor adjunto, nem o seu currículo nem tão pouco as funções inerentes ao cargo para o qual foi nomeado, impante de soberba decidi aprofundar a coisa. Ao melhor estilo de discípulo de Direito Administrativo da antiga 4ª Classe dos Adultos, socorri-me do Despacho n.º 164/2013 relativo ao Regulamento da Estrutura Orgânica Flexível da Câmara Municipal da Marinha Grande, publicado no Diário da República, 2.ª série - N.º 3 - 4 de janeiro de 2013, também disponível no site da CMMG:

SECÇÃO I
Dos gabinetes de apoio
Artigo 10.º
Gabinete de apoio pessoal ao presidente e vereadores
1 — O Gabinete de Apoio ao Presidente (GAP) e o Gabinete de Apoio aos Vereadores (GAV) são estruturas de apoio direto ao presidente da câmara e vereadores sendo constituídos nos termos do disposto nos artigos 73.º da Lei n.º 169/99, de 18 de setembro, alterada e republicada pela Lei n.º 5-A/2002, de 11 de janeiro, na sua redação atual, aos quais compete prestar assessoria política, técnica e administrativa, designadamente:
a) Assessorar o presidente da câmara municipal na preparação da sua atuação política e administrativa, recolhendo e tratando a informação e os elementos relevantes;
b) Assegurar o apoio logístico e de secretariado, necessário ao adequado funcionamento da presidência e ao desempenho da actividade dos vereadores;
c) Elaborar as minutas das propostas para reunião da câmara municipal relativas a competências próprias do GAP e GAV;
d) Apoiar na realização do atendimento público destinado ao presidente e vereadores, nomeadamente na preparação de documentação de suporte, na solicitação de informação às demais unidades orgânicas da autarquia, no agendamento de entrevistas/reuniões e no controlo da execução das decisões tomadas;
e) Apoiar o relacionamento da autarquia com entidades externas, em articulação com as restantes unidades orgânicas, de acordo com a natureza da temática em causa;
f) Colaborar na elaboração dos documentos de gestão previsional e de prestação de contas, coordenando as ações de discussão pública e setorial que antecedem a sua submissão à deliberação dos órgãos municipais;
g) Coordenar a recolha e envio de informação sobre a atividade das unidades orgânicas, requerida nos termos da lei pelos órgãos municipais ou seus titulares, bem como por órgãos de soberania;
h) Coordenar a representação institucional da Câmara Municipal em eventos onde esta participe, responsabilizando-se, em articulação com as demais unidades orgânicas, pela atualização permanente da agenda dos eleitos;
i) Secretariar o presidente da câmara municipal e vereadores, organizar a sua agenda e marcar reuniões;
j) Prestar o apoio administrativo necessário.


Cingindo-me apenas e tão só àquilo que parece ser factual, definição de funções e habilitações académicas do nomeado, não vejo sinceramente qualquer incompatibilidade. Tanto mais que se percebe claramente que o que está em causa não é somente assessória técnica, mas também política, o que também implica confiança pessoal.
Que me faz muita confusão que alguém que há pouco tempo era dirigente de outra força partidária, agora seja nomeado para um cargo de confiança política de outra força diferente, lá isso faz. E muita! Pois na minha imodesta opinião quem atravessa uma metamorfose desta natureza deveria sempre respeitar um período de nojo.
Que, em abstracto, me faz muita confusão alguém aceitar ser nomeado para um cargo (muito mais público!) relativamente ao qual não tem competências para o desempenhar de forma eficiente e eficaz, lá isso faz. E muita! Pois na minha imodesta opinião o serviço público não se compadece com projectos de notoriedade pessoal, de poder e de vaidade. Ou não deveria…
Mas já quanto à argumentação do Sr. Vereador Dr. de Direito António Santos custa-me entendê-la e até aceitá-la, tendo em conta a sua postura, o seu currículo e a sua formação. Aliás, perdoe-me Dr. António Santos, como o senhor tão bem sabe, até prova em contrário todos somos “inocentes”. Mesmo aqueles que apenas com a 4ª são para nós uma referência e um exemplo de sabedoria, de humildade, de carácter e de competência. Não sei se em relação ao Sr. Amândio Fernandes é este o caso, pois não o conheço. Mas o senhor pelos vistos também não.

Aqui que ninguém nos ouve - não acha que o argumentário deveria ter sido outro, ou então ter aplicado o benefício da dúvida?