26/03/14

Limpinho, limpinho!




- Quem vem lá faz alto! – berrou inseguro o 2º cabo, segurando desajeitadamente a G3 nas mãos trémulas e apontando-a sem grande convicção em todas as direcções.
A noite, escura como breu, não deixava enxergar um palmo à frente do nariz. O silêncio, apenas entrecortado pelos pios das aves nocturnas, que mais se assemelhavam a gritos lancinantes de almas depenadas pela maldita crise, tinha-lhe permitido identificar no sonar do instinto de sobrevivência o ruído de passos furtivos na sua direcção. A brilhante moleirinha do 2º cabo Seguro recordava agora a utilidade de todos os ensinamentos que recebera durante a recruta Jota - “Se o cabrão se aproximar de ti e não disser a senha, espeta-lhe um tiro nos cornos! Há divergências que são insanáveis e só a morte é irrevogável(1). Nunca te esqueças que a hesitação é a morte do artista e um gajo tem de se mostrar sempre confiante!”.
Do outro lado uma voz folgazona cantarolou com timbre de barítono:
- Calma pá, sou eu, o 1º cabo Passos, pá!
- A senha! – gritou o 2º cabo, à beira dum ataque de nervos – Se dás mais um passo nos cornos espeto-te um tiro no cabrão!
A tensão condicionava-lhe o raciocínio e a fórmula de guerra, repetida vezes sem conta pelos instrutores do aparelho, saia-lhe da boca de forma desordenada. Do outro lado ouviram-se risinhos.
Os segundos que se seguiram pareceram-lhe uma eternidade. Porventura teria coragem para disparar?
Após alguma hesitação, do outro lado do breu o 1º cabo Passos, que se fazia acompanhar pelo sargento-mor Silva, voltou a tentar quebrar o gelo:
- Eh pá, baixa lá a bazuca a que gente só quer dar dois dedos de conversa, pá.
Como um autómato o 2º cabo Seguro ripostou com a firmeza dum guerreiro pigmeu:
- Repito, senão dizes a senha espeto-te uns cornos no tiro do cabrão!
Do outro lado nova risada.
- É pá, a senha é… a senha é… é… hi, hi, hi…
Pressentido que a coisa podia descambar e que ambos podiam explodir de riso a qualquer momento, o sargento-mor puxou dos galões baços de sebo e segredou ao 1º cabo Passos:
- experimenta “programa cautelar”.
Embora a contra gosto, o 1º cabo colocou a voz e cantarolou a suposta senha, como se estivesse a representar numa revista de madame La Féria:
- Prontos pá, programa cautelar. Estás satisfeito?
Do outro lado da noite ouviu-se uma descarga intestinal inusitada.
Não reconhecendo a senha como válida e pressentindo que teria de tomar uma decisão complicada, o 2º cabo Seguro acabara de sujar as truces imaculadas que recebera de espólio na última refrega com o furriel Costa.
Tentando recompor-se e assumir de novo uma atitude ofensiva de táctica defensiva, o 2º cabo tapou as narinas com o polegar e o indicador, berrando com voz anasalada e com quanta força tinha, o que ainda tornou o ultimato mais hilariante para os seus interlocutores:
- Último aviso: ou dizem a merda da senha, ou o cabrão dos cornos espetam-se no tiro!
Sentindo o odor a fezes moles e temendo uma recaída da moral dos investidores, o sargento-mor tentou uma vez mais assumir o controlo da situação. Colocou as mãos em concha à volta da boca para amplificar o som e vociferou para o escuro, alto e bom som:
- Camaradas subalternos, deixem-se mas é de brincadeiras e entendam-se lá que eu não tenho a noite toda para estas pintelhices. A conversa já me está a cheirar mal e já não tenho idade para andar ao relento até tão tarde. Acho que já apanhei um resfriado. Por acaso alguém tem por aí uma pastilha para a garganta? De preferência com sabor a laranja. Hum?
Pressentindo que o tempo se esgotava e que não lhe restava outra alternativa, o 2º cabo tentou ensaiar a melhor saída:
- Não volto a avisar, ou me dizem a puta da senha ou… - a frase foi interrompida pela voz esganiçada da generala Angela que tentava descansar numa tenda montada a um bom par de metros da linha de frente.
- Pouco barrulho que eu prreciso de descansarr a cabeça! Se continuam a fazerr barrulho mando-vos darr uns açoites e corrtarr na rração!...
- Outra vez? – questionou entre dentes o 2º cabo.
- Algum prroblema 2º cabo? – retorquiu a generala, que tinha ouvido de tísico.
- Nenhum, senhora generala. Eu só queria mesmo era saber a senha…
Apercebendo-se que o precipício estava a um passo, o sargento-mor procurou no bolso do camuflado um pedaço de papel onde tinha rabiscado um armistício para situações de emergência. Em vão. O pedaço de papel parecia ter desaparecido.
Exasperado teve um assomo de memória, tinha utilizado o pedaço de papel para travar a perna da mesa da cozinha que não parava de balançar, enquanto ele e a sua Maria comiam a sopita agora servida pelas Irmãs da Caridade, após a brutal redução que sofrera no pré.
- Ó 1º cabo, tente lá mais uma vez, a vez se o gajo se cala para a generala descansar! – ordenou o sargento-mor.
- Está bem, mas agora é à minha maneira – retorquiu o 2º cabo. - Eh pá, ainda estás por aí?
Agoniado e nauseado pelo cansaço e pelo odor que lhe impregnava as truces, o 2º cabo reuniu todas as forças que tinha e, não contendo um segundo fluxo de ventre, respondeu:
- Agora é que é a sério, se não me dizem a senha espeto uns cornos no cabrão do tiro!
- Limpinho, limpinho! – berrou exultante o 1º cabo, convencido que a sua intervenção salvífica um dia seria reconhecida e assinalada com um feriado nacional não comemorado e uma lápide em campa rasa com os seguintes dizeres: “Aqui repousa o abençoado 1º cabo Passos, que nos livrou da troika e que possibilitou uma saída limpa. Pelos relevantes serviços prestados à nação, o povo agradecido derrama lágrimas de reconhecimento.”
Aliviado pela correcção da senha o 2º cabo ergueu os olhos ao céu e glorificou Jesus por mais um campeonato.
- Ok pessoal, avancem que eu vou começar a assar as chouriças. O pipo está ali debaixo dum chaimite. Vão lavar as mãos e sentem-se à mesa.

  


(1)nota do autor:
Apesar das leis da física, da química e do manual de instruções, nem sempre a morte é irrevogável. Que o diga Miguel Relvas que ressuscitou num Congresso da Herbalife, alguns meses após falecimento por arakiri.



19/12/13

O presente de Calimero



Pedi (aliás, supliquei) ao Pai Natal inspiração, engenho e arte, para escrever um conto de Natal que tocasse o coração dos resistentes que ainda visitam incógnitos este antro do Vigário. Mas o ansião dos sonhos recusou satisfazer o meu desejo, que apenas pretendia retribuir a amizade que devo a esses meus amigos virtuais – “Este ano portaste-te mal, Relaxoterapeuta!” – proferiu com olhar distante e frio.
- A soberba tolheu-te a razão e a gula insuflou-te o abdómen! Não apoiaste ninguém nas autárquicas, mas depois defendeste a governabilidade com uma coligação entre o PS e a CDU. Escreveste textos arrogantes e imperceptíveis. Foste à FAG e abusaste da poncha. Ridicularizaste o jornal da cidade e o seu director. Não deste aumento à Lurdes Rata. Desejaste a mulher do Arlindo. Foste jocoso com o deputado da nação. Zurziste no Cavaco. Gozaste com o primeiro ministro e com os seus colegas. No fim de semana passado foste ao Museu do Vidro, à Galeria Municipal e à exposição sobre a Indústria de Moldes, apenas porque a entrada era grátis. Não escreveste um post sobre a morte de Mandela. Foste insensível a todos quantos à tua volta desenvolvem projectos sociais de forma desinteressada. Não disseste uma palavra sobre a legítima aspiração do Tocandar a terem um espaço digno para levarem por diante o seu meritório projecto. Enviaste pedidos de amizade no facebook sem te identificares. Ficaste calado por longos períodos e noutros não conseguiste conter a verborreia e o atrevimento. Em tudo viste motivo de chacota e de escárnio. Querias agora a recompensa, era?
Há momentos em que não nos apetece olhar o espelho com medo de nos vermos. Sobretudo com o distanciamento dos olhos dos outros. O orgulho porém impeliu-me a jogar a última cartada:
- O Pai Natal sabe por acaso que o Conselho de Ministro aprovou hoje o aumento da idade da reforma e que o meu amigo vai ter de andar a distribuir beijos e prendas a garotos ranhosos, e a apanhar bosta de rena com vassourinha e pá, até perfazer a bonita idade do Manoel de Oliveira, e com direito apenas a uma caneca de café e meia carcaça dura?
Os olhos do Pai Natal toldaram-se de sangue e revolta. Indignado, procurou no saco das prendas um pequeno frasco de vidro.
- Toma filho, faz bom proveito!
Agarrei no frasco e li o rótulo:  “Inspiração para Crónicas de Escárnio e Maldizer”.


13/12/13

Imaginário natalino




Afinal o Pai Natal existe. Mais, também existe uma Mãe Natal. Estiveram ontem em amena cavaqueira com Pedro Manuel, no Palácio encantado de São Bento, enquanto na sala ao lado Popota ouvia atenta Paulo Sacadura, companheiro de brincadeiras de Pedro Manuel, desabafar com mágoa que nem à macaca se consegue brincar com António José, o colega de recreio taciturno e infeliz que nunca está satisfeito com nada. Coisas de miúdos.
A conversa de Pedro Manuel com o casal Natal correu tranquila e serena. Sem grandes sobressaltos. Sem grandes embaraços.
Pedro Manuel mostrou-se confiante e seguro dos seus sonhos, falando dum país de fantasia, onde fadas e duendes empreendem, a cada segundo que passa, o grandioso milagre da recuperação económica, apesar das investidas dos dragões da bruxa Lagarde e dos ogres de Frankfurt e de Bruxelas. Mas, cuidado! É preciso não baixar a guarda! Porque apesar do caminho traçado nos levar inevitavelmente até Alice e a esse maravilhoso mundo onde tudo é possível, incluindo a diminuição dos impostos sobre o rendimento das pessoas e a reversão dos cortes de salários e pensões, é necessário manter (quem sabe reforçar) uma dieta rigorosa, sob pena do aumento de gorduras nos voltar a precipitar ladeira abaixo, pela força da gravidade dum Estado mãos-largas. Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e Pedro, no zénit da sua prodigiosa imaginação, sabe do que fala.
Pai Natal e Mãe Natal parecem esmagados pela prosa ponderada e pela quase obscena clareza com que Pedro Manuel esmiuça conceitos complicadíssimos e intricadas equações. Já não têm dúvidas, Pedro Manuel merece a prenda que lhe trouxeram, um monólogo criativo sem qualquer contraditório ou réplica de reposição dos factos. Terá certamente um futuro brilhante. Com toda a certeza passará com distinção qualquer prova oral. A menos que as renas se rebelem e no lugar do casal Natal coloquem dois jornalista (a sério) que perguntem a Pedro Manuel o que realmente todos queremos saber – o que é que ele fez com o enorme saco de gomas que lhe “demos”.



11/12/13

Dialéctica



  
É claro que para quem não tem a mínima noção do que é “planeamento”, falar em Plano B não fará qualquer sentido. Mas será mesmo assim?
Por vezes a realidade demonstra-nos o contrário, a existência de Plano B não resulta propriamente de uma visão estratégica e lúcida da forma como pretendemos antecipar e acautelar eventuais contingências, mas antes como resultado e consequência dos próprios acontecimentos, substituindo-se assim a acção opcional pela reacção condicionada. Senão vejamos. O governo continua a negar a existência de qualquer Plano B para a eventualidade do chumbo, pelo Tribunal Constitucional, de algumas medidas contidas no Orçamento de Estado para 2014. Mas será mesmo verdade? Não, não é. O plano B do governo é António José Seguro. Assim como Mário Soares é o Plano B do PS, os Estaleiros de Viana o Plano B da Martifer ou a coligação PS/CDU o Plano B dos Pereiras (Álvaro & Vitor).
A actual situação do país deixa-me profundamente inquieto. Mas as alternativas que se vislumbram no horizonte ainda o tornam mais negro.
O melhor mesmo é ir comprar 605 Forte para accionar o meu Plano B e ir desta para melhor, caso a hipocrisia do Sr. Silva persista em considerar a democracia como o Plano C ou D para a regeneração política do regime, e caso nós, o povo sofredor, brando e cordato, continuemos impassíveis a assistir ao funeral de Mandela, bebendo minis e comentando a triste figura do Sr. Silva a descascar cebolas e a espalhar diplomacia barata.



06/12/13

Pepe Rápido Show



Há seis dias atrás o deputado Pedrosa escrevia assim no facebook:
“Quinta-feira, dia 5 de Dezembro, o Secretário-Geral do PS, António José Seguro, vem a Leiria expressamente para ouvir a opinião de um grupo de empresários sobre a reforma do IRC. É assim, com os intervenientes que se devem construir as boas propostas políticas.”
Há dois dias atrás o deputado Pedrosa escrevia assim no facebook:
“Na próxima quinta-feira o Secretário-Geral do PS vai ouvir empresários da região de Leiria sobre a reforma do IRC. Uma forma diferente de apresentar propostas políticas, ouvindo os intervenientes. É às 21 h no Hotel Eurosol em Leiria.”
Foi, portanto, ontem à noite.
Hoje de manhã li a seguinte notícia no Expresso on-line:
“PS só aceita baixar IRC depois do IVA e do IRS
A proposta socialista faz parte de um elenco de dez que o PS entrega hoje na Assembleia da República, no âmbito da reforma do IRC.” (continuar a ler)

Conclusão:
António Seguro trabalhou noite dentro, para construir boas propostas políticas que resultaram da auscultação de ontem à noite a um “grupo de empresários” da região, e cujo prazo limite de entrega ao Expresso, era esta madrugada, e na AR, durante o dia de hoje.
Os meus agradecimentos ao Sr. Seguro, por se ter deslocado expressamente. E por se ter deitado tarde.
Vá lá, agora vá descansar um bocadinho que o deputado Pedrosa trata do resto.


04/12/13

Estado Malandro


A propósito desta notícia (via facebook da Irene Constâncio), recupero um post que escrevi em Novembro de 2010, intitulado Banco Alimentar.
Infelizmente o texto continua actual, com uma única excepção, as taxas de IVA, que entretanto aumentaram.




27/11/13

A classe do argumentário



  
Extracto da acta nº 22, relativa à reunião ordinária da Câmara Municipal da Marinha Grande realizada no dia 25/10/2013, disponível no site da CMMG.

(…)
3 - DESPACHO N.º 285/GP/AP/2013 – DESIGNAÇÃO DO ADJUNTO DO GABINETE DE APOIO À PRESIDÊNCIA
Para os devidos efeitos, na sequência da instalação da Câmara Municipal da Marinha Grande para o quadriénio de 2013/2017 e na qualidade de Presidente, dou conhecimento ao digníssimo órgão executivo, que através do meu despacho n.º 285/GP/AP/2013, de 22 de outubro, designei para exercer as funções de adjunto do meu gabinete de apoio, o Senhor Amândio João Paula Fernandes.
(…)
O Sr. Vereador António Santos acrescentou que apesar de conhecer mal o nomeado [Sr. Amândio Fernandes], também achou que não terá o perfil adequado, uma vez que os tempos que aí vêm exigem pessoas com saber e saber fazer, e com um saber estar, o que lhe parece que não é o caso, pelo menos a julgar pelos debates durante a campanha eleitoral, questionando se pelo facto de ter a 4.ª classe terá competência para analisar os projectos QREN.


Confesso que quando li este extracto da acta de reunião de câmara em que o Sr. Presidente Dr. de Farmácia Álvaro Pereira, dava conhecimento à restante vereação de ter nomeado o Sr. 4ª Classe Amândio Fernandes para adjunto do seu gabinete de apoio, fiquei… confuso.
Tal como havia feito o Sr. Comendador Martins em entrevista ao jornal local, o Sr. Vereador Dr. de Direito António Santos, começa o seu argumentário com uma premissa no mínimo conflituante com a apreciação de falta de perfil que faz de seguida. Ora, se alguém não conhece bem outra pessoa, como pode fazer julgamentos de adequação de perfil e (pasme-se) de postura (“saber estar”)? Fácil, basta ter em devida conta os debates em que o visado terá participado na última campanha eleitoral e o seu pré-histórico grau de instrução escolar, para se perceber que, para além de vendedor de consultas à porta do Centro de Saúde, arrumador de carros ou simplesmente escriva de blogue anónimo, o sujeito não tem capacidade para o lugar. E muito menos para “analisar projectos do QREN” que, como é do domínio público, não é tarefa para qualquer cabecinha.
É contudo no mínimo estranho, que o Sr. Vereador Dr. de Direito António Santos não tenha invocado no seu argumentário, a eventual falta de currículo do nomeado, para a adequação à função.
Como também não conheço o senhor adjunto, nem o seu currículo nem tão pouco as funções inerentes ao cargo para o qual foi nomeado, impante de soberba decidi aprofundar a coisa. Ao melhor estilo de discípulo de Direito Administrativo da antiga 4ª Classe dos Adultos, socorri-me do Despacho n.º 164/2013 relativo ao Regulamento da Estrutura Orgânica Flexível da Câmara Municipal da Marinha Grande, publicado no Diário da República, 2.ª série - N.º 3 - 4 de janeiro de 2013, também disponível no site da CMMG:

SECÇÃO I
Dos gabinetes de apoio
Artigo 10.º
Gabinete de apoio pessoal ao presidente e vereadores
1 — O Gabinete de Apoio ao Presidente (GAP) e o Gabinete de Apoio aos Vereadores (GAV) são estruturas de apoio direto ao presidente da câmara e vereadores sendo constituídos nos termos do disposto nos artigos 73.º da Lei n.º 169/99, de 18 de setembro, alterada e republicada pela Lei n.º 5-A/2002, de 11 de janeiro, na sua redação atual, aos quais compete prestar assessoria política, técnica e administrativa, designadamente:
a) Assessorar o presidente da câmara municipal na preparação da sua atuação política e administrativa, recolhendo e tratando a informação e os elementos relevantes;
b) Assegurar o apoio logístico e de secretariado, necessário ao adequado funcionamento da presidência e ao desempenho da actividade dos vereadores;
c) Elaborar as minutas das propostas para reunião da câmara municipal relativas a competências próprias do GAP e GAV;
d) Apoiar na realização do atendimento público destinado ao presidente e vereadores, nomeadamente na preparação de documentação de suporte, na solicitação de informação às demais unidades orgânicas da autarquia, no agendamento de entrevistas/reuniões e no controlo da execução das decisões tomadas;
e) Apoiar o relacionamento da autarquia com entidades externas, em articulação com as restantes unidades orgânicas, de acordo com a natureza da temática em causa;
f) Colaborar na elaboração dos documentos de gestão previsional e de prestação de contas, coordenando as ações de discussão pública e setorial que antecedem a sua submissão à deliberação dos órgãos municipais;
g) Coordenar a recolha e envio de informação sobre a atividade das unidades orgânicas, requerida nos termos da lei pelos órgãos municipais ou seus titulares, bem como por órgãos de soberania;
h) Coordenar a representação institucional da Câmara Municipal em eventos onde esta participe, responsabilizando-se, em articulação com as demais unidades orgânicas, pela atualização permanente da agenda dos eleitos;
i) Secretariar o presidente da câmara municipal e vereadores, organizar a sua agenda e marcar reuniões;
j) Prestar o apoio administrativo necessário.


Cingindo-me apenas e tão só àquilo que parece ser factual, definição de funções e habilitações académicas do nomeado, não vejo sinceramente qualquer incompatibilidade. Tanto mais que se percebe claramente que o que está em causa não é somente assessória técnica, mas também política, o que também implica confiança pessoal.
Que me faz muita confusão que alguém que há pouco tempo era dirigente de outra força partidária, agora seja nomeado para um cargo de confiança política de outra força diferente, lá isso faz. E muita! Pois na minha imodesta opinião quem atravessa uma metamorfose desta natureza deveria sempre respeitar um período de nojo.
Que, em abstracto, me faz muita confusão alguém aceitar ser nomeado para um cargo (muito mais público!) relativamente ao qual não tem competências para o desempenhar de forma eficiente e eficaz, lá isso faz. E muita! Pois na minha imodesta opinião o serviço público não se compadece com projectos de notoriedade pessoal, de poder e de vaidade. Ou não deveria…
Mas já quanto à argumentação do Sr. Vereador Dr. de Direito António Santos custa-me entendê-la e até aceitá-la, tendo em conta a sua postura, o seu currículo e a sua formação. Aliás, perdoe-me Dr. António Santos, como o senhor tão bem sabe, até prova em contrário todos somos “inocentes”. Mesmo aqueles que apenas com a 4ª são para nós uma referência e um exemplo de sabedoria, de humildade, de carácter e de competência. Não sei se em relação ao Sr. Amândio Fernandes é este o caso, pois não o conheço. Mas o senhor pelos vistos também não.

Aqui que ninguém nos ouve - não acha que o argumentário deveria ter sido outro, ou então ter aplicado o benefício da dúvida? 


26/11/13

Alvitre



Em dia de mais um protesto (absolutamente justificado e legítimo!), sugiro alguns apontamentos cronológicos sobre uma famosa Unidade de Saúde Familiar que nunca chegou a sair do papel.
Para memória futura.

23/6/2008
SAP - Ameaça ou Oportunidade?


18/2/2010
Marinha Grande: primeira USF criada até final do primeiro semestre


7/1/2010
Pergunta 786/XI/1
Assunto: Criação de USF no concelho da Marinha Grande


23/2/2010
Algumas notas sobre as Unidades de Saúde Familiar (USF’s)


26/6/2013
“Os deputados do Partido Socialista, Basílio Horta, João Paulo Pedrosa e Odete João, questionaram o Ministro da Saúde, Paulo Macedo, acerca do motivo de ainda não ter ocorrido a abertura da Unidade de Saúde Familiar no Centro de Saúde da Marinha Grande, abertura essa que há mais de dois anos está prevista.”


21/11/13

Sexo, mentiras e Pepsi


Virgolina, uma virgem batida de meia-idade, sentou-se e pediu uma Coca-Cola. O empregado, alto e loiro, questionou com ar trocista:
- Coca-Cola não temos. Pode ser Pepsi?
- Pode  – respondeu Virgolina olhando para o relógio, como se esperasse alguém.
O empregado colocou sobre a mesa a lata de refrigerante, um copo com uma rodela de limão e uma palhinha.
Virgolina encheu o copo, ignorou a palhinha e bebeu o conteúdo de um trago. As borbulhas gás precipitaram-se no estômago vazio, fazendo-a estremecer. Foi invadida interiormente por uma náusea momentânea. Sentiu o refluxo gasoso subindo vertiginosamente e soltou um vibrante e sonoro arroto, que pareceu prolongar-se por infindáveis segundos. Todos os olhares de reprovação e censura das mesas circundantes fixaram-se nela e Virgolina sentiu necessidade de se explicar e de tomar uma posição firme:
- Nunca bebam Pepsi! Esta bebida é horrível e fez-me arrotar sem querer. Que porcaria… por favor passem esta mensagem, que ninguém beba Pepsi! É importante que todos se unam e nunca mais bebam Pepsi!
- Com licença?! – advertiu uma sexagenária que comia uma torrada a duas mesas de distância.
- Perdão minha senhora. Com licença – retorquiu Virgolina envergonhada mas com uma pequena sensação de gozo, a de ter desferido uma estocada fatal no refrigerante inconveniente, que agora iria sentir nas vendas o resultado da sua indignação. Ela tinha a certeza que o movimento iria crescer e tornar-se imparável. Prova disso era a manifestação espontânea de apoio que acabava de testemunhar ao ver as pessoas quase mecanicamente e em simultâneo a erguerem o punho cerrado enquanto gritavam em uníssono – Pepsi nunca mais! Pepsi nunca mais! Pepsi nunca mais!
Alguns segundos depois chegava Coelho, um tipo execrável que habitualmente abusava dela. Pegou-lhe no braço com brusquidão e arrastou-a para a casa de banho contra a sua vontade. Subiu-lhe a saia e arrancou-lhe as cuecas, empurrando-a contra a parede fria. Virgolina implorou, usando o argumento recorrente:
- Não! Não! Por favor não, que eu sou virgem!…
Coelho respondeu indiferente:
- Pois que seja, vou-te sodomizar outra vez. Como habitualmente…
Pouco depois de Coelho ter abandonado a casa de banho com ar indiferente, Virgolina saíu do pequeno cubículo envergonhada, procurando algum sinal de compaixão nos rostos que momentos antes tinham reprovado o seu comportamento mas que depois lhe tinham dado a sua solidariedade. Porém, nem um olhar de complacência. A nota dominante era uma espécie de torpor colectivo e um estranho esforço de indiferença. Todos figiam não reparar no sucedido.
Virgolina sentiu vontade de gritar, de pedir ajuda para denunciar o abusador, de desmascará-lo, de o castigar, mas conteve dentro de si toda a raiva e humilhação. Afinal arrotar inadvertidamente em público era bem mais desconcertante do que ser sodomizada em segredo por Coelho. Pelo menos continuava virgem.
Sentou-se novamente à mesa e pediu uma 7UP. Sete, o número de Cristiano Ronaldo, o melhor do mundo. A ideia reconfortou-a, mesmo sabendo que o refrigerante que pedira era extremamente rico em gás.


16/11/13

Barba e Cabelo





Coloquei cuidadosamente a mola da roupa na virola da perneira direita, de forma a que a calça não roçasse na corrente impregnada de massa consistente, montei na velha bicicleta Ferrer com selim de molas e zarpei calmamente para a Garcia, onde o meu barbeiro privado e particular amigo Zé Florindo aguardava, com duas morcelas de arroz e um quartil de vinho para a merenda, a marcação de barba e cabelo feita via facebook na véspera. Modernices.
Os cumprimentos e a troca de galhardetes ainda duraram alguns minutos, porque a última tosquia já remontava a meados de Setembro, após o que nos dirigimos para a improvisada barbearia, um anexo em telha-vã onde Zé Florindo guarda habitualmente a lenha e algumas alfaias. Para além de uma boa provisão de pinho, pinhocas, caruma e dos artefactos agrícolas, alguns centenários, o cenário do mestre-escama era composto por um cadeirão de verga desengonçado, estrategicamente colocado em frente a um velho psiché com o espelho rachado, um lavatório em ferro fundido com bacia de esmalte e uma bilha de barro com água do poço. O cheiro a pinhal e a humidade misturavam-se e entranhavam-se nas narinas, que ainda demoraram uma boa dúzia de espirros e fungadelas a habituarem-se ao ar saturado.
Sentei-me no cadeirão de verga, que quase cedeu. Zé Florindo aconchegou uma toalha de turco ao meu colarinho e iniciou a função com a beata do cigarrito que lhe queima os pulmões dias a fio, preso no canto da boca. Vícios.
- Ouve lá, já te contei aquela dos tempos da guerra fria, duma corrida entre um atleta da América e outro da “Ursse”?
- Conta lá – respondi mirando-me ao espelho e tentando-me convencer de que as rugas profundas nos olhos e na testa, e os tufos de cabelos brancos que caiam sobre os ombros, eram apenas ilusão de óptica. Puro engano… - “nunca nos habituamos a ser velhos” – pensei cá para comigo.
- Um russo e um americano foram fazer uma corrida para tirar as teimas. Tá claro que o camarada russo ganhou. No dia seguinte na América os jornais diziam assim: “Atleta americano alcança brilhante segundo lugar e atleta russo fica em penúltimo”. Sacanas dos capitalistas!
Não pude conter uma gargalhada nem de recordar a primeira página do pasquim desta semana, que por mero acaso deu de caras comigo nas bombas da GALP, enquanto levantava dez euritos no multibanco para pagar a tosquia. Não fora um olhar mais atento e pensaria tratar-se de uma entrevista à doutora adjunta do alcaide, com direito a fotografia de dimensões consideráveis e ar circunspecto, reconhecendo na primeira pessoa estar a mais na câmara, o que estranhei. Mas não. Era uma parangona habilidosamente subtraída a uma entrevista cirurgicamente pensada pelo director encartado e generosamente concedida pelo comendador descartado. Animosidade, revanche, fel e maus fígados. Ou então, usando a formulação do próprio veneno – não conheço o suficiente acerca das capacidades dos senhores (director e comendador) para emitir uma opinião fundamentada. Contudo estou em crer que têm uma queda natural para actividades pirotécnicas pouco recomendáveis. Para além de trato pouco urbano e amistoso. Porque nisto do deve e do haver no “pagamento de fidelidades políticas, cumplicidades e compadrios”, uma mão lava a outra e as duas lavam os divertículos. Não há virgens nem vencedores.
Ficam todos em penúltimo.  

 

14/11/13

O anónimo das nove e qualquer coisa



O anónimo das nove e qualquer coisa não tem nome, não tem rosto, mas tem hora. Tem a hora em que decide, porque alguém lhe permite, escrever o que a vontade e os reflexos, mais ou menos condicionados, lhe ditam. A hora em que os neurotransmissores indicam às extremidades dos dedos em que caracteres carregar, transpondo para a escrita, mais ou menos complexa, mais ou menos frívola, mais ou menos temerária, mais ou menos encriptada, tudo o que seria suposto ou muito para além disso.
O anónimo das nove e qualquer coisa não tem nome, não tem rosto, mas existe. É uma escolha. Posso ser eu, podes ser tu, pode ser quem assim o entender – um qualquer cidadão, um político, um jornalista, um padre, uma puta, um zé-ninguém, um sicrano com enormes responsabilidades, um fulano com enorme poder, um manipulador ou, simplesmente, um palerma anónimo. O que faz a diferença para que na mesma comunidade se albergue gente tão diferente e de natureza e origem tão diversas, é o facto semi-irrefutável de que o anonimato funciona como um desinibidor de bloqueios, como uma forma de escapar ao crivo da censura social, aos tormentos de má consciência, à rotina dos dias, ao estigma das patologias aditivas, ou simplesmente porque se torna muito mais cómodo ser inconsequente e inimputável. Porque se torna muito mais cómodo criar personagens, alter egos - vilões, artistas, canalhas - ou simplesmente porque é muito mais cómodo distanciarmo-nos da fraqueza e da miséria humana. Transformarmo-nos de súbito em cidadãos altruístas, reflexivos ou numa bestas, não exige nada em especial, apenas ocultar o nome ou adoptar uma senha. Contudo, a volatilidade dos comportamentos e a ausência de medo e de pudor revelam um denominador comum que nos obriga a reflectir sobre a convivência com esta forma de manifestação, com este direito que não se basta a si próprio.
Mas o mais irónico, é que a condição do anónimo das nove e qualquer coisa é a mesma que assumimos quando estamos na cabine de voto, diante de um pedaço de papel com siglas, nomes ou rostos, confrontados com a nossa consciência e com a nossa responsabilidade.
Talvez seja isso que por vezes faz falta aos espaços virtuais em que o anónimo da nove e qualquer coisa e outros escrevem o que as suas vontades e os seus reflexos, mais ou menos condicionados, lhes ditam – consciência e responsabilidade. Pois que sem isso, não há cabine de voto que resista, não há paciência para conviver de forma indiferente com palermas.
 Eu anónimo me confesso.


13/11/13

Rotativa




Marinha Grande: PS atribui pelouros à CDU para garantir governação

Marinha Grande: Os vereadores da CDU vão assumir, entre outros, os pelouros da Educação, Acção Social e Turismo
Jornalista: 
Mário Pinto



 


Edição de: 
     

O PS da Marinha Grande chegou a acordo com a estrutura local da CDU para uma coligação política, como forma de garantir a maioria absoluta no executivo liderado pelo socialista Álvaro Pereira.
O acordo entre socialistas e comunistas surge mais de um mês depois da realização das Eleições Autárquicas do dia 29 de Setembro, no acto eleitoral em que os socialistas reconquistaram a presidência do município, mas sem maioria absoluta.
Com o compromisso de governabilidade, como referem os dois partidos, os dois vereadores da CDU, Vítor Pereira e Alexandra Dengucho, vão repartir a tutela, a tempo inteiro e a meio tempo, respectivamente, os pelouros da Acção Social, Educação, Desporto, Saúde, Juventude, Terceira Idade, Turismo e Geminações.
Com este entendimento, refere Aníbal Curto, mandatário da lista do PS à Câmara Municipal da Marinha Grande, a governação do município passará a ser feita “com estabilidade” entre os dois partidos mais votados nas eleições do passado dia 29 de Setembro.





11/11/13

São Martinho




Machete ajustou os óculos na ponta do nariz e folheou o Borda d’Água com a altivez dum néscio. Fixou os olhos esbugalhados no final da página dezoito, dedicada à sabedoria popular, e leu o ditado como se de um bordão se tratasse: no São Martinho vai à adega e prova o vinho.
Não foi de modas. Abeirou-se do pipo e, sôfrego, meteu queixos à torneira. O néctar correu livre e inundou-lhe o estômago, o fígado e o córtex cerebral.
Mais ao lado, Aníbal Silva e Pedro Coelho, com a boca atafulhada de castanhas queimadas e cada qual com o seu copo de água-pé, não perdiam pitada, rindo a bandeiras despregadas da figura do comparsa. “Este Machete é cá uma figura!…” – sussurrou Pedro a Aníbal piscando-lhe o olho toldado. Anibal aquiesceu mirando os sapatos coçados e rotos nas biqueiras.



01/11/13

Todos os Santos




Nos finais do século IX, para fazer pirraça ao triunvirato de serviço e para dar aos crentes e não crentes uma folgazinha há muito reclamada pelo Sindicato dos Decoradores de Sepulcros, Gregório IV, um papa que, tal como os seus três antecessores, regorjitava sempre que o limite de lácrima-crísti emborcado de penalty, excedia a capacidade instalada de destilação (fixada em dois almudes), decidiu proclamar que a festa de Todos os Santos se celebrasse invariavelmente no primeiro dia de Novembro, pelos séculos dos séculos.
A coisa foi andando, andando, até que uns séculos (e uns almudes de zurrapa) depois, um trio de jagunços carregados de notas de 5€, acabadas de imprimir na China, aterrou na Portela e soprou ao ouvido do serventuário que os tinha requisitado, não ser mais possível admitir tanto folguedo, tolerar tanta rambóia. Com o país à míngua, a carneirada tinha de ser imediatamente retirada do redil e tosquiada repetidamente, até espiar os pecados acumulados por viver acima do suposto. Gregório IV rodou 180º sobre si próprio dentro da tumba, ficando a baloiçar sobre a proeminente pança, entre o incrédulo e o escandalizado. Se o espaço o permitisse ter-se-ia benzido para esconjurar a blasfémia. Se o espaço fosse ventilado, teria regorgitado de nojo.
Ironia das ironias, quis o destino que fosse agendada para o primeiro 1 de Novembro roubado ao ócio, a votação do OGE para o ano da desgraça de 2014, obrigando governo e deputados, enfarpelados de bruxas e duendes com cabeça de abóbora, a esmolarem Pão por Deus ao povo do cimo das escadarias do mosteiro de São Bento da Vitória.
Lamentavelmente, ao contrário do que o papa Gregório estabeleceu, hoje não se celebrará o Dia de Todos os Santos. Hoje assistimos indignados, muitos de braços caídos e estomago vazio, à votação final do OGE, sem grande confiança no porvir e sem grande fé nos que do cimo das escadarias do Mosteiro de São Bento da Vitória festejam o halloween. Porque lamentavelmente não há santos para adorar. Porque todos, mas mesmo todos os que hoje votaram o orçamento, em maior ou menor grau, por acção ou omissão, são responsáveis pela nossa falta de esperança. Ou será que alguém acredita que estamos no bom caminho e que este é um orçamento de redenção?
Até quando vamos ser cúmplices desta tragédia semelhante à grega?

Até um dia destes...


30/10/13

Numerus Clausus




O liberalismo-freack deste governo é um case study – consegue meter no mesmo pacote a mais profunda das aversões pelo papel fundamental do Estado (protecção social, saúde, educação, regulação, etc), tudo em nome duma pseudo-consolidação das contas públicas, com a mais intolerável e mesquinha intromissão na vida privada das pessoas (e animais!), uma característica dos estados totalitários, tanto de direita como de esquerda.
Foi ontem conhecida a intenção da dona Cristas de limitar o número animais de estimação. Em tese até pode fazer algum sentido. Porém, do que é conhecido da proposta que se encontra em cima da mesa, a mesma parece ser desprovida de qualquer fundamentação cientifica (ou outra), pretendendo apenas limitar o número de animais a um número, redondo, seguindo a mesma ausência de critérios patentes nos cortes cegos dos salários da função publica e das pensões, ou na redução da despesa em quatro mil milhões de euros. A dislexia é a mesma.
Mas o governo vai mais longe, entroniza os veterinários e as câmara municipais como guardiões do templo da legalidade, como polícias da política dos números absurdos, obrigando os primeiros a bufarem e os segundos a resgatarem as vítimas e a entregarem-nas à guarda da Segurança Social da Bicharada ou das Comissões de Protecção de Animais em Risco.
Contas feitas, é intenção dos marmanjos que apenas coabitem, por apartamento, um total de quatro animais, com a limitação de dois cães e quatro gatos.
É verdade que não conheço pormenores da nova lei, mas creio que há questões que podem e devem desde já ser suscitadas, como por exemplo:
- por que razão cada cão vale dois gatos?
- por que razão dois cães e dois gatos coabitam melhor do que três cães?
- por que razão um T0 tem a mesma capacidade para a coabitação de animais, do que um T3 ou um T4?
- será que passa a ser obrigatório que os donos de casais de animais obriguem os mesmos a seguirem rigorosos planos de planeamento familiar, ao uso compulsivo do preservativo  ou a prolongados períodos de abstinência sexual, para não ultrapassarem os limites previstos, através de procriação?
- e em relação aos macacos, quantos são permitidos por apartamento?
- e o Conselho de Ministros? Como é que vai funcionar? Vão reunir aos quatro de cada vez? É que aquilo é um saco de gatos…




27/10/13

Apneia Democrática




Aníbal António Cavaco tem sono fácil e pesado, cochila com facilidade, mesmos nas situações mais inusitadas, apresentando ainda frequentes e preocupantes episódios de apneia. Por vezes o estado de sonolência é de tal modo profundo que, apesar do circo arder em seu redor, mais parece morto, mortinho da Silva.
Porém, Aníbal António tem uma cútis extremamente sensível e reage a pequenos estímulos que de quando em vez lhe activam os condicionados sensores da epiderme, interferindo de imediato com os períodos em que os sentidos se encontram insensíveis. Basta que entre duas ressonadelas profundas alguém sopre o nome de “palhaço”, lhe vá à parca pensão ou imagine sequer que o dito já posou para a posteridade ao lado de Oliveira e Costa & Associados, e a reacção é imediata. Bastas das vezes deselegante e petulante.
O último episódio conhecido de súbita reacção alérgica foi o do zumbido do velho zangão Mário, que lhe passou de raspão junto ao umbigo. Acto contínuo, Anibal António, que não sentira o intenso cheiro a esturro quando Machete, o turra responsável pela intendência, ateou um bidão de querosene em Angola para imolar o seu próprio país, despertou de imediato em sobressalto e até chegou a “sentir uma violenta picadela” desferida sem dó nem piedade pelo antecessor jubilado, ignorando o facto dos zagões não terem ferrão. Afinal, aquela ausência injustificada a uma aula da segunda classe para ir aos grilos, numa soalheira tarde da primavera de 1946, revelara-se agora fatal para o domínio básico da entomologia.
Mas desta vez, ao contrário da outra em que despachou para o meirinho um difamador de Palhaços, a reacção de Anibal António foi sofisticada. Puxou dos galões carcomidos pele traça e dissertou professoral sobre a solidez e clareza dos esclarecimentos prestados, sobre o reconhecimento do papel do decano zangão, sobre o respeito institucional, sobre a preservação da dignidade devida à instituição que representa de forma intermitente e sobre como fazer, em pouco tempo, mais-valias na compra e venda de acções manhosas. Perdão, corrijo: este último item da palestra foi omitido porque os 140 caracteres do twuitter também não dão para tudo, não é?
Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Haja alguém que explique a esse senhor que repousa enfastiado em Belém, que ele é que tem falta de dignidade e de respeito! É bom que ele não se esqueça que só continuamos a ser governados por um bando de incompetentes porque ele próprio caucionou essa solução, porque ele mesmo quer que seja essa burricada a tomar conta do governo, um escritório de representação da troika que se instalou em São Bento, a expensas da borregada, para despachar as decisões dos esmoladores. Haja alguém que explique a esse fulano que os juros de usura que dispararam em flecha nos últimos tempos, pode agradece-los à crise conjugal que o Paulinho, em momento de desiquilibrio emocional, decidiu despoletar de forma irrevogável! Haja alguém que explique a esse sujeito que a falta de respeito que as “instâncias internacionais” demonstram pelo nosso Estado de Direito e pelos nossos Órgãos de Soberania, mais não são do que a consequência óbvia do seu próprio desrespeito e da sua quebra de lealdade em relação ao que jurou defender – a Constituição. Haja alguém que explique a esse sicrano que há muito que o país retirou a confiança política aos pseudo-guionistas da Reforma do Estado. Haja alguém que explique a esse dorminhoco que o país está à beira do caus social e que ele se prepara para promulgar um embuste, argumentando que seria pior para o país viver sem orçamento do que viver com um que viola as normas constitucionais. Haja alguém que transmita a esse irresponsável que seria muito melhor para o país viver sem presidente, do que com um que não tem a mínima noção do que significa “Sentido de Estado”. Haja alguém que me chegue um copo de água com açúcar e que me ponha o coprimido debaixo da língua, que estou à beira dum ataque.




25/10/13

Vexatório



Apesar da minha ansiosa e quase pueril insistência, Edward Snowden, embora renitente, lá acabou por revelar que a NSA, o big brother da inteligência americana, nunca me colocou sob escuta.
Que por cá poucos há que ligam alguma coisa ao que eu digo e penso, não é para mim novidade, antes uma evidência. Agora que Obama não se importe com o potencial perigo que eu represento, já cheira a humilhação. Confesso que estou de rastos…



23/10/13

Alvitre



(reconstituição possível dum pequeno diálogo ocorrido num dos debates da campanha eleitoral para as últimas autárquicas)
Moderador (mas pouco) – Dr. Álvaro, o senhor pôs a Agenda 21 na gaveta. O que é que o senhor fez à Agenda 21?
Candidato do PS – Onde é que está a Agenda 21? Digam-me, onde é que está isso?
Moderador (mas pouco) – Vitor Pereira, onde está a Agenda 21?
Candidato da CDU – No site da câmara!
  
Há alguns dias atrás, a propósito de uns milhões que o governo terá gasto para informatizar um serviço do Estado, constatando-se que o referido sistema nunca terá funcionado, recordei este episódio.
Por cá também se gastaram alguns milhares na elaboração da Agenda 21 Local.
Segui a sugestão de Vitor Pereira e dei-me ao “trabalho” de ler a referida Agenda, encomendada pelo executivo de Barros Duarte/Alberto Cascalho. Rapidamente conclui que a maioria dos ex-candidatos não a leu.
Numa altura em que ainda se procuram consensos, articulação de projectos políticos e formas de enquadramento para tantas medidas avulsas que foram anunciadas durante a campanha, parece-me a mim, vulgar cidadão do Casal da Formiga com legítimas aspirações a ser feliz, que a Agenda 21 Local poderá ser o elemento que falta (mas que existe), o guião para a estratégia concertada, tendo em conta que a aposta nocrescimento sustentável, sendo transversal e (penso) defendida por todos, corresponde a uma forma coerente de implementar estratégias conducentes a melhorar a qualidade de vida da população do nosso concelho, em todos os aspectos relevantes do seu quotidiano.
Sugiro por isso a todos os que o queiram, incluindo os actuais membros do executivo camarário e responsáveis políticos da nossa comunidade, a lerem a Agenda 21 Local (disponível no site da CMMG) sem qualquer reserva mental e sem qualquer preconceito. Pode ser que tenham uma agradável surpresa e que o dinheiro gasto possa por fim ter utilidade. Desculpem-me a ousadia.
 

Vanidade



Coçando suavemente o queixo proeminente, o comendador olhou à sua volta com olhar pisco de quem já devia duas horas à cama e questionou:
- Então só eu que me candidato contra a situação? Bem, pelo menos eu cumpro a minha obrigação. Se os eleitores me elegeram é porque querem que eu seja o presidente da assembleia!
Não obteve resposta. Todos sabiam que o guião da sua pequena vingança pessoal incluía episódicos apontamentos em bicos dos pés.

21/10/13

Micro-deuses

 





A propósito dum “esclarecimento à população de Picassinos” publicado esta semana num jornal que lamentavelmente não respeita nem a memória dos seus fundadores, nem a cidade que lhe dá nome.
 

Quando um responsável editorial se escuda no argumentário da publicidade paga para publicar textos abjectos com os quais diz não se identificar, está aberta não a Caixa de Pandora mas uma fossa asséptica. Na prática o que se diz é que o dinheiro pode comprar espaço supostamente informativo, formativo, de divulgação ou de opinião (responsável), tal qual compra coitos e malabarismos a mulheres de virtudes duvidosas.
Os falsos moralistas são assim, beatos compulsivos hiper-sensíveis ao que os rodeia, mas incapazes de perceber o alcance das suas miseráveis cumplicidades.